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Considerações sobre a consciência ingênua

Por Hamilton Werneck
23/12/19 - 10:33

Qualquer profissional com esse tipo de consciência seria desastroso, porque a consciência ingênua não é objetiva, sua marca é a subjetividade. Olha o portador dessa grife através de janelas muito pessoais do mesmo modo como olha o mundo e o interpreta. A superficialidade de considerações marca o comportamento do ingênuo, pessoa facilmente influenciável por aparências e julgamentos imediatos, com tendência marcante para generalizações, provenientes de fatos isolados, agora projetados para todo o sistema.

Falta ao ingênuo a universalidade da visão. Ele é estreito tanto quanto a janela de suas vistas e pensa ser tudo igual, o imenso mundo, ao pequeno e restrito, visto de sua janelinha obturada.

A consciência ingênua é um desastre para numa empresa porque não são consideradas as múltiplas variáveis intervenientes no processo da produção e da administração. A visão ingênua é terrivelmente particular e não se projeta além do alcance de seu ver concreto. Para além do palpável nada enxerga e, portanto, não consegue inferir, quando muito induz um pouco, mas suas induções são afetadas pelas temperaturas do momento.

O tombo do ingênuo é muito grande e ele geralmente não tem forças para suportar a queda, simplesmente porque nunca pensou na possibilidade de cair ou de ser derrubado. O ingênuo vive pensando que todos agem conforme seu modo de ver e nem percebe a quantidade de oposições existentes. Suas frustrações, então, são difíceis de suportar.

O ingênuo espera o que não existe, vê o que não acontece, entende o que ninguém falou, é capaz de julgar imparcialmente e tem ideias tão próprias que pouco aceita dos grupos em que convive.

Sua ação só se torna possível se for sustentado por um braço forte, de razoável ingenuidade, aliada ao poder, ou se conseguir enganar a plateia sob seu comando, com algum populismo anestesiador.

As armas mais fortes do ingênuo são as fórmulas feitas, os slogans perenes, a aversão às mudanças e o desejo insistente de que todos aceitem o “carneirismo” como sistema de passividade e resignação.

A reação ingênua costuma ser de espanto, diante da verificação de que algo novo está acontecendo. Lembrar é sempre bom aos ingênuos de consciência que o progresso existe e o atropelamento é um fato.

Manter a plateia desinformada sobre as mudanças e processos novos é a tática usada pelas pessoas que nunca refletiram sobre a ingenuidade da própria consciência e é exatamente pela falta de reflexão que são ingênuos.

O que fazer quando o identificamos? É um trabalho difícil porque as reações deles quando flagrados são muito agressivas. Torna-se necessário agir constantemente, mostrando, em doses homeopáticas, a realidade diferente do mundo e das coisas à consciência desse profissional. Ele precisa ser agitado em sua quietude e instalação, para sentir as diferenças e os fossos imensos entre a realidade e a sua visão ingênua. Então, quanto mais conseguirmos a participação dos ingênuos em debates e reuniões, em congressos e palestras diferentes, em lugares diferentes, tanto melhor, porque só com muito esforço, mudanças, sacudidas e reinvenções conseguiremos desinstalar essas pessoas.


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