Um bom motivo
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"Será que eu serei o dono dessa festa?" (Caetano Veloso)
Isso faz bastante tempo. Quero dizer, na verdade, nem faz tanto tempo assim, apesar de ter sido em uma época em que celulares, redes sociais e inteligências artificiais não faziam parte do nosso matuto cotidiano. Talvez o tempo é que esteja passando rápido, ou nós é que estamos nos tornando lentos demais para acompanhá-lo.
Oh, tempo rei! Não me iludo: tudo permanecerá do jeito que tem sido. Inclusive as praças e os Carnavais. Todo ano é a mesmíssima coisa: amores efêmeros, catarse coletiva, folias e foliões, marchinhas festivas, breve suspensão da realidade. Nessa época do ano, entre aqueles cinco amigos inseparáveis, a regra era bem clara: beijar o maior número de mulheres possível; se alguém por acaso acordasse ao lado de uma, ganharia o título de Rei do Carnaval! E quem não quer ser rei de alguma coisa?
O tipo de fantasia não importava: se era anjo, bebê, caubói, presidente ou super-herói, tanto fazia. O que realmente contava era atrair a atenção de alguma Colombina e encantar aqueles olhos pintados de curiosidade e desejo. "Ô, abre alas, que eu quero passar!". O quinteto desceu a Alberto Braune atrás de um bloco, depois outro, e mais um; no caminho, conseguiam um beijo aqui, outro ali e, com sorte, algum número de telefone, anotado de qualquer maneira num pedaço de papel.
"Allah-la-ô, ô, ô, ô!". A madrugada avançava e, claro, era natural que um dos integrantes daquela animada confraria se destacasse para um encontro mais íntimo, digamos assim. E é nessa esquina da crônica que encontramos o mais jovem do grupo, que para efeito desta crônica passa a se chamar simplesmente Zé. Era por volta das quatro da manhã, quando Zé se percebeu incrivelmente sozinho, suado e cansado, com os olhos pesados, o caminhar arrastado. Oh, tempo rei! Como as pessoas mudam! Basta um bom motivo.
"Chegou a turma do funil! Todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto!". As calçadas estavam cobertas de confetes e serpentinas, latas vazias de cerveja e refrigerantes, uma bagunça que só é aceitável durante o Carnaval. Alguns foliões cochilavam sentados às portas das lojas, aguardando o primeiro ônibus para voltar para casa; outros preferiam retornar a pé mesmo. Era exatamente isso que fazia nosso protagonista, quando avistou uma moça sentada em um banco da avenida. Ela estava vestida de noiva, com direito a véu, grinalda e buquê, o vestido curto deixava à mostra as pernas cobertas apenas por uma meia-calça arrastão. Zé ficou apaixonado.
— Oi! — disse ele, se aproximando e sentando ao lado dela, num impulso febril. Ajustou o chapéu de caubói e apoiou os braços no encosto do banco. Sorriu. Parecia que era ele quem seria o Rei daquele Carnaval, mas àquela altura, isso já nem importava mais.
— Oi… — respondeu a moça, sem muita empolgação. Virou o rosto para o lado, como se estivesse aguardando por alguém. Correu de súbito uma fresca brisa em seus rostos, ao mesmo tempo em que um cão latiu em algum lugar próximo. Em seguida o cão se tornou dois, depois mais um, mais outro e ainda outro.
Zé, empolgado, encostou mais seu corpo ao dela e envolveu seu ombro com o braço; como ela não se manifestou nem a favor, nem contra, nosso amigo Zé se empolgou. "Se você fosse sincera, ô-ô-ô-ô, Aurora!".
— E aí? Se divertiu bastante hoje? — questionou ele, mas ela permaneceu em silêncio. — Onde você mora? — continuou, mas a moça continuava muda. — Você não tem medo de estar aqui sozinha, a essa hora? — insistiu ele, mais uma vez, arqueando as sobrancelhas e sentindo o corpo tremer num calafrio. "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim; ó, meu bem, não faz assim comigo, não; você tem; você tem que me dar seu coração!".
— Quando eu era viva, eu tinha… — disse ela, com um tom melancólico e o pobre do Zé, aspirante a Rei do Carnaval, desembestou avenida afora, sem olhar para trás.
Hoje o Zé é um sujeito sério, não bebe, nem pula mais Carnaval. Ah, como as pessoas mudam! Basta um bom motivo.
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