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Lá ele!

Por George dos Santos Pacheco
25/02/26 - 09:12

"O que quer que faça, não conte a ninguém." (Josh Homme e Chris Goss)

Era um dia comum em um prédio de apartamentos na General Osório, um dos endereços mais sofisticados da cidade. A obra estava a todo vapor: troca de pisos, reboco, instalação elétrica e hidráulica, aplicação de porcelanato, pintura acrílica, e gesso. Tudo de primeira, meu amigo. Os patrões eram exigentes e a reforma era completa.

Os operários trabalhavam sem parar, das 9h às 17h, de segunda a sexta-feira, conforme estabelecido na convenção do condomínio. A norma proibia o uso do elevador social para transportar materiais; para cargas que excedessem 120 quilos, a regra era utilizar as escadas.

Subir e descer escadas carregando pesos e volumes desconfortáveis? Pois é! Essa era a realidade da construção civil nos centros urbanos. Embora algumas regras possam parecer absurdas à primeira vista, todas têm seu propósito; desrespeitá-las seria, no mínimo, imprudente.

A equipe era composta por dois colegas, ninguém menos que Sabirico e Angu Duro, ambos habitués do Bar do Balboa, onde o último foi indicado pelo primeiro. O trabalho ainda era extenso, mas numa sexta-feira, com o expediente quase no fim, cada minuto contava. Decidiram, então, lotar o elevador com sacos de entulho, mesmo que os avisos no painel alertassem sobre os riscos.

— Que cara é essa? Você não acha que vou descarregar tudo isso sozinho, né? — perguntou Sabirico, sentado em cima de um dos pacotes feitos de sacos de farinha de pão usados.

— Não? É que… — Angu Duro tentou argumentar, sua voz esganiçada denunciando seu nervosismo.

— Bora, entra aí! Para de enrolar! — insistiu Sabirico. Não teve jeito; o colega teve que acompanhá-lo, embora relutante. "Ora, quer dizer então que Angu Duro tem medo de elevadores?", inferiu, de pronto, Sabirico, com um sorriso contido. Quem iria imaginar?

— Vai jogar em Mury domingo? — perguntou Sabirico, com indiferença, antes que a porta do elevador se fechasse. Angu Duro estava tão pálido quanto uma vela.

— Err... não sei. Acho que sim. — respondeu ele, encostando-se na parede do aparelho. Teve um sobressalto quando a máquina deu um solavanco e iniciou a descida. Sabirico susteve o riso a custo.

— Se não for, vai perder mais uma atuação brilhante do Sabirico! O Ancelotti vai me escalar e tudo, você vai ver!

— Corta essa! É mais fácil o Enéas ganhar as eleições deste ano. E o Flamengo, hein? — perguntou ele, procurando o maço de cigarro no bolso, apenas para perceber, desolado, que era proibido fumar ali.

— O que tem o Flamengo?

— Ano passado a gente levou quase tudo! Esse ano, ninguém segura a gente! — exclamou Angu Duro, cheio de convicção.

— Você acredita nisso mesmo? —perguntou Sabirico, com desdém, mas, antes que Angu Duro pudesse responder, o elevador parou, as luzes se apagaram e a iluminação de emergência se acionou. Haviam excedido o peso permitido, é claro.

— Que merda, cara! Que merda! — gritou Angu Duro, recuando novamente até a parede do elevador.

— Puta que pariu! Que merda! — gritou Sabirico, levantando-se, num movimento enérgico e exagerado. —Aperta esse botão de emergência! — orientou Sabirico, mas o colega nem prestou atenção.

— A gente vai morrer! A gente vai morrer, cara!

— Cala a boca! Ninguém vai morrer. Excedemos o limite de peso, só isso. Eu te avisei...

— Avisou o quê? Você que me chamou pra entrar no elevador! — disse Angu Duro, tremendo de medo.

— Mas foi você que sugeriu colocar todos esses sacos aqui dentro porque estava com pressa, blá-blá-blá, tinha manicure marcada...

— Mas eu não ia de elevador! Ah, merda! — explicou o colega, quase em lágrimas.

— Fica tranquilo, cara. Daqui a pouco alguém abre a porta. Não é nada demais. — disse Sabirico, quando, de repente, Angu Duro segurou sua mão.

— Sabirico... eu preciso te contar um segredo.

— Qual é, cara? — disse o outro, tentando soltar a mão, presa em tenaz.

— Por favor... me escute. Eu... eu sou apaixonado por você! Nunca tive coragem de expressar meus sentimentos, mas não posso morrer sem isso!

— Lá ele! — esbravejou Sabirico, livrando-se finalmente do colega.

— Por favor! Diz que sente o mesmo por mim! — suplicou Angu Duro, com lágrimas nos olhos.

— Sai fora, cara! — respondeu o outro, recuando o máximo possível na parede do elevador. Num piscar de olhos, as luzes voltaram e o elevador começou a descer.

— Hahahahaha! — gargalhou Angu Duro, com os olhos ainda marejados, apontando o dedo para o amigo. — É sacanagem! Você precisava ver sua cara! — concluiu, assim que o elevador chegou ao térreo.

— Ora, seu filho da mãe! — resmungou Sabirico, mais para si do que para Angu Duro.

— Vamos! Deixe de moleza! Ou você acha que vou descarregar isso tudo sozinho? — disse Angu Duro, colocando um pacote de entulhos nas costas e saindo naturalmente pelo hall.

Sabirico ficou paralisado dentro do elevador, pálido como uma vela, observando o colega se afastar. "Sacanagem?", pensava embasbacado. Até que para uma brincadeira, Angu Duro fora demasiado convincente em sua agônica e tão íntima confidência. De qualquer forma, Sabirico era, definitivamente incapaz de guardar dinheiro; um segredo, então.


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