As distorções provocadas por certas mudanças

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Por Hamilton Werneck
05/08/19 - 10:28

O mundo está muito diferente daquele imaginado por Dante Alighieri em sua obra A Divina Comédia. O fundo do inferno, conforme a concepção de Dante, habitado pelos maiores pecadores pensados pelo poeta, permitia a convivência do demônio com os que desobedeceram às ordens superiores, sobretudo do príncipe. Hoje, o contrário prevalece: quem desobedece sente-se feliz pela transgressão que causou. Enquanto hoje os pecados relativos ao sexo, sobretudo a pedofilia, estão classificados entre os hediondos, no inferno do poeta, onde os seres humanos deveriam deixar do lado de fora toda esperança, esses pecados ocupavam o segundo círculo, muito próximo da porta de entrada e as penas eram brandas. Ali dois adúlteros cumpriam a pena enfrentando ventos fortes e continuavam juntos. As distorções se apresentam de tal modo que ninguém mais é culpado de nada. O que importa é a sagacidade de jogar a culpa para cima dos outros. Nesse caso, nem Deus escapa. O criador, tendo colocado a árvore do bem e do mal no centro do paraíso e proibindo, em seguida, que seu fruto fosse comido, acabava de contrariar a psicologia do ser que ele criou. Portanto, Deus, desconhecendo a psicologia do ser humano, passou a ser o culpado pelo pecado original e, não, Adão e Eva, como explica o livro do Gênesis.

Ira não é mais um dos sete pecados capitais. A boa ciência médica e psicológica informa a todos que a ira deve ser posta para fora. Assim, em vez do ser irado contrair uma úlcera gástrica, quem conviverá com ela serão aqueles contra os quais a ira foi jogada. Vale a sentença: quem guarda a ira, contrai um tumor!

E quem informou pela imprensa ou pelos sons dos púlpitos que a inveja deve ser evitada, cometeu um dos maiores equívocos da atualidade. Agora, inveja foi transformada em programa de metas ou projeto. Se eu estou com ânsias de querer o mesmo carro do vizinho ou a bolsa Louis Vuitton da minha comadre, nada disso é inveja e, sim, uma oportunidade de se fazer um projeto para obter o mesmo bem.

Se o ócio era a morada do diabo como diziam os antigos, nada disso tem sentido, se lermos o livro “Ócio Criativo” de Domenico de Masi. O momento do ócio, da preguiça, do absoluto sossego tornou-se o nicho mais perfeito da busca de novas ideias que devem instigar o ser humano em direção a um futuro mais promissor.

E, por fim, se a humanidade não pode viver sem Deus, sem religião e sem teologia, todas essas estratégias continuam existindo dentro de roupagens renovadas e bastante distorcidas. Acaso alguém duvida do convívio com três fortes teologias neste início de século, representadas pela autoajuda, pela teologia da prosperidade e pelo empreendedorismo?

Pois bem, a autoajuda só ajuda a quem a promove. O ajudado é quem sustenta o ajudador. Na teologia da prosperidade, o ingresso numa determinada religião passa a ser a garantia de sucesso imediato e o empreendedorismo a razão de todos os sucessos.

E tudo é envolvido com uma espécie de sacralidade. Quem não teve a oportunidade de ver exposto o livro: O monge que vendeu a sua Ferrari? Alguns continuam santos, outros são destronados porque foram elogiados em muitos livros e, depois, faliram na vida real.

Se Camões dizia em seu verso que tudo estava mudando, seja o tempo, seja a vontade, concluímos ser o poeta português bastante verdadeiro. A humanidade atendeu o lusitano, mesmo ao preço de grandiosas distorções.


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