Tiro ao alvo

Alvo brasileiro tem idade, cor e CEP

Por Conrado Werneck Pimentel
19/02/19 - 16:04

Não é novidade, como já escrevi aqui, que o Brasil sustenta índices de homicídio de países em guerra. Temos a polícia que mais mata e a que mais morre no mundo todo. Más condições de trabalho somadas a políticas de enxugar gelo em uma corporação com dois séculos de existência, repleta de vícios e desgastes à própria imagem fazem parte de uma fórmula que, já sabemos, não dá certo.

Problemático, acima disso tudo, é o perfil de quem mais morre no país: negros, pobres, periféricos, jovens. Pessoas com histórias distintas mas que compartilham de um contexto socioespacial parecido: a vida dessas pessoas escorre por ruas e vielas, quando não em supermercados, asfixiados. Ou quando não são torturados e mortos dentro de uma dependência da polícia militar, como no caso de Amarildo; ou quando não são arrastados por uma viatura da PM, como o caso de – no mínimo, desleixo – Cláudia Silva Ferreira. Ou quando não são assassinados por snipers de cima de uma torre localizada dentro da Cidade da Polícia, em Manguinhos; ou, ainda, quando não são assassinados por matadores profissionais – tudo indica que, milicianos – como no caso de Marielle Franco. São inúmeros casos.

A barbárie e a selvageria, se já instalados, não podem ser motivo de relativização, muito menos de comemoração. Não podem ser justificados. O projeto civilizatório no Brasil foi feito a ferro e fogo e continua sendo à base de bala e de encarceramento. O projeto de doação de órgãos compulsória de pessoas mortas com “indícios de resultado de ação criminosa” não só é um desrespeito à única e maior entidade da qual somos proprietários – nossos próprios corpos e identidade biológica – como também é a demonstração de como a vida é negligenciada no país. No fim das contas, demonstram que certas faixas da população simplesmente não importam. Vidas negras não importam. Importa a aclamação da violência como forma de resolver a dissolução da educação brasileira das últimas 3 décadas.

Não é possível que nós, como sociedade, aceitemos que a vida das pessoas seja tirada de forma banal e absurda. Aceitar que um jovem seja baleado enquanto sai para comprar água de coco, simplesmente por morar em uma área em que exista uma facção criminosa. Aceitar que um jovem seja asfixiado até a morte por um segurança de uma empresa por aparentar descontrole em um supermercado. Aceitar que uma criança tome um tiro na barriga sem que, ao mínimo, esteja havendo troca de tiros entre polícia e traficantes. Aceitar isso tudo é aceitar a instalação da barbárie, é colocar a violência descomedida em que vivemos como algo natural, que faz parte da paisagem.

O projeto anticrime do ministro Sérgio Moro é um alargamento das possibilidades do aprofundamento do genocídio em curso no Brasil. Os autos de resistência – peça fundamental para compreender como funciona a política de guerra às drogas no país – se tornarão “fichinhas” perto da possibilidade de haver tantas outras justificativas para que pessoas sejam mortas pelas forças de segurança do estado.

Já é mais do que sabido que o modelo de polícia de aproximação, como a importada do Haiti, não resolve o problema da segurança pública. Já é mais do que sabido que uma intervenção militar nesta mesma esfera não resolve este mesmo problema. Já é mais do que sabido que a guerra às drogas não resolve nada. Já é sabido que todas essas questões fazem parte do problema da segurança pública, quando não aprofundam mais ainda um problema estrutural que temos no país.

Continuaremos a dar murros em ponta de faca ou tentaremos fazer diferente? Tudo indica que temos masoquistas em cargos de poder, que determinam quem é passível de ter sua vida ceifada ou não.


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