Escalada de primeira teresopolitana ao Dedo de Deus completa 70 anos

Lilia Montanha foi a primeira mulher de Teresópolis a conquistar o topo da pedra

Por Luisa Machado
17/07/19 - 13:04
Escalada de primeira teresopolitana ao Dedo de Deus completa 70 anos Lilia é a menina ao centro, na parte inferior da foto. Escalada aconteceu há 70 anos, em Teresópolis | Foto: Arquivo pessoal/Lilia Montanha

O que, no início, era apenas uma brincadeira de crianças, acabou marcando a história de Lilia Montanha para sempre: ela foi a primeira mulher teresopolitana a conquistar o Dedo de Deus, uma das formações montanhosas mais famosas do Brasil, localizada em Teresópolis, na Região Serrana do Rio.

Sua história começou no dia 17 de julho de 1949, há 70 anos. Lilia, na época com 15 anos de idade, saiu de casa escondida de sua mãe, acompanhada de seu irmão Edmundo, sua irmã Ilka, sua amiga da época, Geny Cardoso, e mais um grupo de excursionistas, rumo ao topo da montanha, a 1.692 metros de altitude.

“Eu comecei subindo a Pedra do Sino e a Verruga do Frade, mas a minha maior vontade era o Dedo de Deus. Eu sempre pedia a minha mãe e ela dizia não, e aí o meu irmão me deu a oportunidade de ir com ele e eu fui, escondida da minha mãe. Eu era a caçula do grupo, e eu fui a primeira das meninas a completar a subida”, afirma.

Lilia sempre praticou muito esporte, jogava vôlei na escola, andava de bicicleta e caminhava muito. Segundo ela, a emoção de conquistar o pico começou no momento em que pôs os pés para fora de sua casa.

Eu já comecei a sentir emoção ao sair de dentro de casa. Quando eu cheguei na base e começamos a subir, meu coração começou a bater mais forte. Em um determinado momento da subida, chegamos a um dos trechos mais famosos, chamado chaminé. Na saída da chaminé, no penúltimo lance até chegar na pontinha do dedo, foi onde a emoção foi maior. É indescritível, só indo lá pra sentir.

Segundo Lilia, na época, não existiam muitos recursos de segurança para completar a escalada, então, além dos excursionistas que participaram do passeio, montanhistas também acompanharam o trajeto: um subia até o topo, um ficava no meio do caminho e o outro no início. Eles eram responsáveis pela escalada de todos os outros excursionistas e, para colaborar, amarravam os jovens aventureiros pela cintura e iam puxando, um a um, cuidadosamente, pelas cordas.

Lilia Montanha em meio ao grupo de amigos e excursionistas no topo do Dedo de Deus Lilia Montanha em meio ao grupo de amigos e excursionistas no topo do Dedo de Deus | Foto: Arquivo pessoal/Lilia Montanha

“Não deu tempo de descer no mesmo dia porque escureceu e nós ficamos sem saber onde estávamos, porque estávamos em mata fechada, e a ordem foi de que parássemos onde estivéssemos. Só quando começou a clarear foi que nós descemos, e aí eu disse a minha irmã “Vai você na frente, vê como a véia (a mãe) está, se ela tiver brava, eu nem lá vou...”, brinca Lilia, referindo-se a sua mãe, que só no dia seguinte descobriu que os três filhos haviam enfrentado a aventura, quando o grupo de excursionistas chegou novamente à base da montanha.

Apesar disso, Lilia diz que a felicidade do reencontro da mãe com os filhos foi maior do que a bronca, que só levaria algum tempo depois.

O gosto pelo montanhismo acompanhou Lilia por anos. Hoje aos 85 e morando em Niterói, na Região Metropolitana do Rio, ela relembra com graça e emoção das mais de 40 vezes em que chegou ao topo do pico, e também das tantas homenagens entregues a ela, por ter sido a primeira mulher teresopolitana a desbravar o Dedo de Deus.

Lilia na atualidade com a pedra do Dedo de Deus ao fundo, em TeresópolisLilia na atualidade com a pedra do Dedo de Deus ao fundo, em Teresópolis | Foto: Arquivo pessoal/Lilia Montanha