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Podia ter dormido sem essa

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Por George dos Santos Pacheco
21/07/21 - 15:09

“Se a chama que está dentro de ti se apagar, as almas que estão ao teu lado morrerão de frio.” (François Mauriac)

Está fazendo muito frio, não é, cara pálida? Segundo o Instituto Pachecão de Geografia e Estatística, este é o inverno mais rigoroso dos últimos tempos. Não lembro de ter sentido tanto frio assim, nem mesmo em meus tenros e verdes anos. Deve haver até geada nos rincões mais distantes. E a culpa pelas temperaturas tão intensas e baixas pode ser do El Niño, de uma massa de ar polar, da crise econômica e até do Chaves. Bem, a verdade é que não quero nem saber de quem é a culpa, quero apenas esquentar minhas orelhas.

Contudo, a sensação térmica é incrivelmente subjetiva, ou seja, há pessoas que sentem mais frio do que outras – fato provado e sacramentado pela ciência, astrólogos e sociólogos. Numa friaca dessas, há quem saia de casa todo encapotado, coloca duas calças, três casacos, cachecol, touca e o escambau. Fica até difícil se movimentar. Se precisar ir com urgência ao banheiro, está perdido. Há também quem vai dormir e põe todas as cobertas e edredons que estão à mão, só pra no meio da madrugada pensar “podia ter dormido sem essa". Bem aventurados aqueles que podem pensar assim, diga-se de passagem. Passagem não, porque trata-se justamente do mote de nossa anedota.

Todo este introito foi porque, há algum tempo, estacionei o carro na Campesina, às margens do Rio Santo Antônio. Putzgrila, que frio. Era fim de tarde, as sombras se esticavam por baixo dos pés e corria um inconveniente vento gelado. Eu mal havia desembarcado do carro, quando percebi um morador de rua aproximando-se lentamente. Como todo bom ser humano, cidadão modelo e burguês padrão, o julguei antes mesmo que ele me dirigisse qualquer palavra. “Lá vem esse cara pedir dinheiro".

– Amigo, você não tem um trocado aí, não? – perguntou-me o senhor, naquela friagem, somente com uma camisa meia manga, calças jeans surradas e sandálias do Havaí.

“Eu sabia!”, pensei. “Aposto que vai usar o dinheiro pra comprar cacha...”

– Irmão, eu não vou mentir pra você, não: vou comprar cachaça. Está vendo ali? Eu durmo ali, naquela calçada. E num frio desses, só bebendo alguma coisa... – argumentou, sem me encarar.

Poxa vida... eu todo agasalhado, praguejando contra o frio, e aquele senhor dormindo na rua, satisfeito apenas com uma dose de cachaça para esquecer as suas mazelas. Deus do Céu. Franzi os lábios e baixei o olhar, encabulado. Quando foi que nos tornamos assim? Não lembro de ter sentido tanta vergonha na minha vida, nem mesmo em meus tenros e verdes anos.

Dei-lhe o dinheiro, um “boa noite”, um tanto encabulado, e segui para os meus fúteis e desimportantes afazeres. Caríssimos, aquecidos e abençoados terráqueos. Se você tem mais que um casaco, cobertas quentinhas, um teto sobre as cabeças, alguém para lhe dar um abraço, um “boa noite"... levante as mãos pros céus e agradeça a Deus. Porque tem gente por aí que tem muito menos, ou quase nada. E não me venham com essa conversa mesquinha de que é uma escolha morar na rua. Quem quer morar na rua, meu Deus? Quem quer passar por frio, fome, descaso? Ninguém, cara pálida.

Senti-me culpado por ter julgado aquele homem, e responsável, aliás, por ele e todos os outros que mendigam. Eu também sou responsável, não é o El Niño, uma massa de ar polar, a crise econômica e nem o Chaves. A culpa é minha, é sua, é de todo mundo, embora estejamos mais preocupados com as próprias orelhas. Não importa o que diga a ciência, os astrólogos e os sociólogos.

Aquele senhor deve dormir pelas ruas ainda, não sei. Tomara que não. O fato é que me lembro dele toda vez que o frio aperta. Lembro do jeito encabulado, das mãos trêmulas, da franqueza humilhada. Foi assim, naquela mesma noite, quando apoiei a cabeça no travesseiro. Suspirei, incomodado, sentindo as cobertas pesaram sobre mim. Pensei em Papai do Céu, sentado numa nuvem fofinha, olhando pra baixo, sacudindo a cabeça negativamente e estalando os lábios. “Tem vergonha disso não, meu filho?”; “Tenho... tenho sim, Senhor...”. E pensei que podia ter dormido sem essa.


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