MENU

Portal Multiplix

Bandeira roxa: a flexibilização da flexibilização

O relaxamento nos deixa mais longe da “normalidade”

Por Conrado Werneck Pimentel
29/07/20 - 15:28

Rua Dante Laginestra em março. A quarentena na cidade durou 2 semanasRua Dante Laginestra em março. A quarentena na cidade durou 2 semanas | Foto: Acervo/João Luccas Oliveira

O sistema de bandeiras em Nova Friburgo, que serve como diretriz para a reabertura econômica, foi flexibilizado. Nova Friburgo inaugura a “flexibilização da flexibilização”. Ignorando a crescente de infecções de Covid-19 na cidade, a Prefeitura de Friburgo cria uma nova bandeira que relaxa a bandeira vermelha que, até então, era a máxima no distanciamento social e, como em todos lugares, uma forma de convencer as pessoas a não circularem.

A criação de mais uma bandeira que manipula a flexibilização na cidade deveria vir acompanhada não só das regras básicas de higiene que, em uma parte do comércio e das indústrias, vêm sendo adotada, mas também, a testagem em massa e a rastreabilidade de possíveis casos assintomáticos. Se a Prefeitura de Nova Friburgo, na figura do prefeito Renato Bravo e do Secretário de Saúde (e seu vice-Prefeito) Marcelo Braune, não adotam nem a vigilância sobre medidas sanitárias nem a testagem e rastreabilidade, colocam em risco a vida da população e postergam a reabertura das atividades econômicas da cidade, afetando não só a própria cidade, mas como da região.

Qualquer pessoa que caminhe pelo centro, onde há a maior concentração de prestação de serviços da cidade, percebe que as medidas restritivas da bandeira vermelha não surtiram efeito – ou surtiram um efeito “pra inglês ver”: lojas entreabertas, algumas permitindo a entrada de consumidores; em outras, mostrando vestuários nas portas das lojas.

Uma bandeira vermelha “meia-boca” é um convite ao cidadão que está indo ao mercado ou à farmácia ou a qualquer outro serviço essencial, pare, olhe, procure por algo. Com mais comércio nem totalmente aberto, nem totalmente fechado – “entreabertos” – mais pessoas param, demoram na rua, trocam seus afazeres necessários por um saudosismo da “normalidade”, na qual podiam parar em qualquer loja a qualquer momento para ver qualquer coisa.

É compreensível que, frente a paralisia do governo do Estado e do governo Federal, a Prefeitura de Nova Friburgo ceda a pressão que recebe por parte de setores de classe. É compreensível, também, que, frente a irresponsabilidade de todos os órgãos que deveriam estar a coordenar a situação, os próprios pequenos empresários se articulem para que haja o mínimo de reabertura. Contudo, desta forma, todos estão comprometendo não só o Hospital Municipal Raul Sertã – que atende a outras 13 cidades da região – como a própria recuperação econômica do município com a qual, com toda razão, se preocupam.

Mas, enquanto existir o “relaxamento” que estamos tendo na cidade, em relação a determinadas áreas econômicas em detrimento da contenção do vírus, outras vezes mais veremos não só a confusão da criação de uma nova bandeira para determinar a liberação de atividades econômicas, como também o aumento de casos (e as manobras já esperadas da Prefeitura para justificá-las), de mortes e consequentemente a postergação da reabertura que todos os micro, pequenos e médios empreendedores, empregadores e seus empregados tanto desejam para que haja o mínimo de planejamento financeiro.

É certo que o uso massivo de máscaras e a redução do contato social ajudam a frear a propagação do coronavírus. Mas ainda assim a criação da cor de mais uma bandeira no projeto de flexibilização da cidade, na verdade, nos deixa mais longe ainda de um retorno mínimo à “normalidade”. Tal atitude da Prefeitura é, na verdade, uma tentativa de tapar um buraco que tanto o governo estadual quanto o federal deixaram de tapar: a dificuldade de acesso a recursos para pequenas e médias empresas é uma das maiores reclamações do empresariado em meio a pandemia.

Esta dificuldade não só já ajudou a arruinar dezenas de milhares de negócios, como deixou em situação calamitosa outras empresas e pequenos negócios que poderiam se manter com a ajuda do Estado. E, como de praxe no país, deixando os trabalhadores, especialmente negros, pobres e precarizados, em uma situação pior ainda.

Não há reabertura responsável que não leve em conta a importância das vidas que se vão. Não há reabertura possível quando não são seguidas as medidas necessárias para que haja a contenção do vírus. A Prefeitura age de forma direta para que a circulação do vírus se mantenha ativa. Mas, aparentemente vivemos a política do “cada um por si”, que atinge Friburgo: um problema crônico, que se estende da esfera Federal, passando pela Estadual, até a Municipal.

Querem resolver o problema da economia antes de resolver o problema da pandemia. Erram e nos colocam mais próximos do abismo. Os exemplos do descaso são muitos e infelizmente atingem a mentalidade de alguns setores de Friburgo.


O Portal Multiplix não endossa, aprova ou reprova as opiniões e posições expressadas nas colunas. Os textos publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores independentes.

TV Multiplix
TV Multiplix Comunicado de manutenção TV Multiplix Comunicado de manutenção
A TV Multiplix conta com conteúdos exclusivos sobre o interior do estado do Rio de Janeiro. São filmes, séries, reportagens, programas e muito mais, para assistir quando e onde quiser.