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Luto na infância: quais são os desafios para cuidar da criança no momento da perda?

Psicóloga e familiares que passaram pela situação comentam a importância de ser honesto com as crianças no momento de luto

Por Luisa Machado
18/11/19 - 06:00
Luto na infância: quais são os desafios para cuidar da criança no momento da perda? É necessário respeitar o sentimento da criança no momento da perda | Foto: Banco de Imagem

Júlia e Amanda Gomes tinham 8 anos quando perderam a mãe e o avô materno, vítimas de um acidente de carro. As irmãs gêmeas e o irmão mais velho, todos de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, frequentaram sessões de psicólogo por mais de um ano. Hoje, vivem com o pai e recebem o auxílio da tia paterna para o cuidado. Contudo, o luto causado pela perda dos entes queridos, até hoje, está marcado na mente e na história da família.

“Quando minha família soube o que tinha acontecido, levaram eu e meus irmãos para a casa da minha prima. Acordamos e toda a família estava na sala da casa. Logo de cara o meu irmão perguntou se eles tinham morrido na viagem. Minha prima suavemente balançou a cabeça pra cima e para baixo, e nos três disparamos a chorar”, conta a menina Júlia, hoje com 13 anos de idade.

Não existe como mensurar o impacto da perda de uma pessoa próxima, principalmente quando o luto vem para as crianças, que ainda estão em processo de desenvolvimento e entendendo seu lugar no mundo e diante do outro.

Essa é a opinião da psicanalista Jessica Torres. Para ela, o ideal é que a criança tenha acesso à notícia, por mais devastadora que pareça ser, para que ela possa sofrer pela perda, sem inibições e repressões.

“O luto é um processo de ressignificação, que permitirá novos direcionamentos. A criança tem o artifício da fantasia para suavizar o peso da realidade cruel que se apresenta. Para tanto, é preciso que os sentimentos dela sejam legitimados e que o choro possa ser acolhido e suportado”, orienta a psicóloga.

Uma das pessoas responsáveis pelo cuidado com as gêmeas no momento da perda foi a tia, Josanea de Oliveira, que, após a morte da mãe das meninas, passou a colaborar mais diretamente na criação das jovens.

“Tenho sido o mais presente possível e, na época, o assunto foi abordado com muita cautela e acompanhamento psicológico. Por serem pequenas, foi muito difícil pra elas entenderem, mas hoje eu e meus sobrinhos temos uma relação ótima, como se fossem meus filhos”, diz a tia.

A psicóloga complementa a fala da tia, e mostra que o sofrimento pela morte de uma pessoa querida não é uma exclusividade da criança e, em todas as idades, é necessário valorizar a importância do processo de luto.

“O luto é um processo único e intransferível, seja para o adulto ou para a criança. Não é porque a morte faz parte da vida que ela deve ser facilmente entendida e/ou aceita. A morte é algo que se nomeia, mas não se descreve”, finaliza.