(In)satisfação corporal e cirurgia plástica

Por Glauco Rocha
10/07/19 - 16:43

As motivações que levam a um indivíduo a procurar os benefícios da cirurgia plástica tem originado várias pesquisas, sobre este tema. Na atualidade a conclusão da grande maioria dos pesquisadores é que o motivo principal para a procura da cirurgia plástica é a insatisfação com o próprio corpo.

Conclui-se, ainda, que o Transtorno Dismorfóbico Corporal tem alta incidência nesses pacientes. Essa doença psiquiátrica se manifesta em pessoas, que não se aceitam, tem rejeição a si mesmas, e, mesmo após a realização do procedimento, permanecem insatisfeitos com seus corpos, independente do êxito da cirurgia

Nos dias de hoje, a medicina moderna tem a sua disposição inúmeras e avançadas técnicas e abordagens cirúrgicas, que possibilitam e promovem mudanças do contorno corporal, harmonizando e conseguindo um refinamento, das múltiplas regiões corporais. Por conta disto, verifica-se um crescimento acelerado na busca por cirurgias plásticas.

Porém, diferentemente de alguns anos atrás, quando as expectativas quanto aos resultados da cirurgia eram mais equilibrados, sensatos e tinha-se melhor compreensão do paciente no tocante às limitações da ciência médica, que não é exata, e do cirurgião, que, como ser humano, também possui suas limitações, atualmente os anseios, vontades, expectativas e sentimentos dos pacientes estão mais intensos, obsessivos, com exigências buscando a perfeição, estágio esse que a medicina e o cirurgião plástico, por mais que se esforcem, nunca vão alcançar. A matéria prima da ciência médica é o ser humano, que é um ser imperfeito, sujeito a reações imponderáveis e imprevisíveis do seu organismo.

Contudo, o interesse pelas transformações corporais e mudanças da aparência tornaram-se objeto de desejo, associados com a obtenção da felicidade e melhora da autoestima. Essas transformações tendem a seguir normas de padrões de beleza da cultura vigente, compreendendo desde dietas, uso de remédios para emagrecer e ganhos de massa muscular e a realização de cirurgias estéticas.

A popularização dos procedimentos em cirurgia plástica podem ser atribuídos a três fatores principais: aumento das diversidades dos tratamentos cirúrgicos, cada vez mais menos invasivos e mais eficientes; bombardeamento da mídia com programas, revistas e outros meios de comunicação, insinuando uma suposta "simplicidade" dos procedimentos e a criação de corpos "perfeitos" resultantes de cirurgias estéticas. Tal contexto gera nas pacientes a "ILUSÃO" de cirurgias 100% perfeitas e que se pode conseguir o que se desejar. Isso "NÃO É VERDADE"!

Cada corpo, cada organismo tem suas características próprias, e por isso terão a sua melhora específica e possível, variando de caso a acaso.

No Brasil, pode-se ainda acrescentar o aparecimento de "profissionais"(?) pouco éticos, geralmente com formação inadequada, oferecendo cirurgias baratas e facilidades no pagamento, que solicitam exames pré-operatórios por telefone, somente examinando as pacientes minutos antes da cirurgia, ou seja, sem qualquer planejamento. Ou ainda médicos itinerantes, que vão de cidades em cidades, operando de 8 a 10 pacientes no mesmo "dia", e quando surgem as complicações e insatisfações, mudam de localidade, desaparecendo, deixando as(os) pacientes sem qualquer suporte pós-operatório. Os pacientes seduzidos e encantados por milagres propalados pela mídia, em sua boa-fé, se deixam levar pelo canto da sereia, muitas vezes se arrependendo pelo resto da vida.

A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) entende como indivisível a especialidade, não havendo diferenciação entre estética e reparadora. A cirurgia plástica consolidou-se como especialidade, a partir das duas grandes guerras mundiais, em meados do século passado, beneficiando o elevado número de soldados desfigurados por lesões em virtude dos conflitos.

Desde então, os cirurgiões puderam aperfeiçoar suas técnicas na reparação dos tecidos, revelando ao mundo a importância e o crescimento desse ramo da cirurgia, que proporcionava restauração corporal e alívio emocional aos indivíduos desfigurados por traumas de guerras, mostrando assim sua relevância nas esferas sociais e humanistas.

A partir daí, ocorreu uma mudança no olhar da comunidade médica e nos órgãos de saúde em todo o mundo sobre a importância da cirurgia plástica também no tratamento dos indivíduos não deformados. Pelo reconhecimento positivo, esse tipo de intervenção cirúrgica, passou a se tornar um procedimento eletivo, com finalidade também estética, visando remodelar as estruturas normais do corpo, com o intuito de melhora da aparência e da autoestima dos pacientes

A imagem corporal é a figura que temos em nossa mente, a respeito do nosso próprio corpo. As distorções da imagem corporal têm se tornado o tema central para o entendimento das características psicológicas dos pacientes candidatos a cirurgias estéticas.

Estudos estatísticos da SBCP mostram melhorias positivas no que tange à insatisfação corporal após cirurgias plásticas.

Entretanto, causa preocupação na comunidade científica os padrões exagerados de exigências de resultados, que fogem da realidade e do alcance da medicina, distorcidos por Transtornos Dismorfóbicos Corporais e Transtornos Alimentares, que, como dissemos, têm alta incidência em pessoas com insatisfação corporal, e pela malfadada "ditadura" da beleza.

Há de se chegar a um bom termo, com expectativas reais quanto às cirurgias, por parte das/dos pacientes, equilibradas, possíveis e alcançáveis, prosseguindo o cirurgião plástico sempre se aperfeiçoando e pesquisando, em sua busca incessante por técnicas cirúrgicas mais efetivas, seguras e com melhores resultados.



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