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Portal Multiplix

O resgate

Por JC do RH
30/10/19 - 16:00

Lembro-me de haver lido, há muito tempo, um conto sobre um resgate no mar. Era mais ou menos assim: durante uma tempestade, um pequeno barco com três pescadores não estava conseguindo voltar para o porto, havendo sério risco de que viesse a afundar caso a tempestade se tornasse mais intensa. Convocado para liderar uma operação de resgate, o Chefe de Segurança do porto precisou escolher entre duas alternativas: ir em um barco a motor, com apenas dois tripulantes; ou em um barco a remo, que exigiria dez remadores.

Ele optou pelo barco a remo.

Efetuado o bem-sucedido resgate, seu superior decidiu questioná-lo: por que motivo colocara em risco a vida de dez pessoas quando o barco a motor, além de ser mais rápido, exigiria o risco de apenas dois tripulantes? A resposta dele, que nunca esqueci, foi a seguinte: “É verdade, o barco a motor é mais rápido e colocaria menos vidas em risco. Mas o motor é apenas uma máquina, e poderia falhar ou mesmo parar. Se isso acontecesse, não haveria o que pudéssemos fazer; e os nossos três companheiros pescadores possivelmente morreriam, pois o resgate não chegaria até eles a tempo. No barco a remo, por outro lado, pude levar dez das melhores e mais corajosas pessoas que já conheci. E que, além de sua bravura, possuem um enorme sentimento de amizade por aqueles três pescadores. Sabendo da situação desesperadora dos companheiros, aceitaram o risco e remaram como nunca na vida, mesmo tendo as mãos sangrando e os músculos dos braços e das costas a ponto de arrebentar. Cada uma dessas pessoas extraordinárias foi buscar, no fundo de sua alma e do seu coração, a força necessária para efetuar esse resgate desesperado. E foi por saber que isso seria possível, que de fato esse quase milagre aconteceria, que escolhi o barco a remo; e o escolheria mil vezes. Foi por saber, enfim, que nenhuma máquina, por melhor que seja, poderá algum dia se equiparar ao espírito humano”.

Quando falamos de Recursos Humanos, de Liderança e de Gestão de Pessoas, é disso que estamos tratando: do verdadeiro espírito humano, mesmo que imperfeito e nem sempre disposto a mostrar-se em sua plenitude. Falamos de gente que se arrisca, que se sacrifica, que se dedica a ensinar, a ajudar, a acolher, a formar e a transformar. De gente que sabe que às vezes o impossível precisa ser feito, e que então vai além de qualquer dificuldade e consegue fazê-lo. Sem esperar reconhecimento, gratidão, glórias ou honras: apenas por possuir o espírito humano. Eis aí a melhor razão para explicar a escolha de tantos de nós por trabalharmos com pessoas.

Deixo aqui um pedido: se, em algum momento, eu precisar de um resgate, por favor não enviem uma máquina. Melhor dizendo: não enviem APENAS uma máquina. Reconheço e aprecio o valor da tecnologia, mas prefiro não depender de um simples motor, de um robô, de um computador ou de um drone. Se essas máquinas puderem estar por perto e apoiar o meu resgate, tanto melhor; mas, se tiver que ser feita uma escolha radical, como aquela que o conto acima descreve, por favor, peço que enviem dez dos meus melhores amigos.

Mesmo que seja em um frágil, lento e ultrapassado barco movido a remos.


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