O que o monge Beda ensina?

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Por Hamilton Werneck
24/06/19 - 09:25

Este monge medieval foi muito clarividente para o tempo em que viveu. Foi moderno e tem seus pensamentos dignos de uma placa diante de qualquer empreendimento.

PRIMEIRA LIÇÃO: saber e não ensinar. Fantástico. Algumas pessoas ficam felizes porque sabem, porque aprenderam e dominam muitos assuntos. Guardam tudo para si e, o pior, não têm indigestão intelectual. Porque, se tivessem uma indisposição mental, talvez vomitassem toda esta sabedoria. Não importa se o vômito fosse desorganizado, alguém colocaria em ordem tantos saberes. Haveria interesse, sobretudo pelos que têm fome de aprender. Saber e não ensinar é um crime. Os índios Pareci, do médio Mato Grosso, quando viviam ainda em tribos entre os rios Sacre e Papagaio, ensinavam aos outros tudo o que aprendiam e descobriam. E quando descobriram que na maloca em que eu estava havia sabonetes, começaram a aparecer vários indígenas com algum presente para mim e levavam os sabonetes. Era costume entre eles, se quisessem alguma coisa, deveriam trocar. Se nós não quiséssemos a troca, deveríamos guardar os objetos. Os sabonetes acabaram e cessaram as trocas.

SEGUNDA LIÇÃO: ensinar e não praticar. Há muita gente assim. Os outros que façam. Por isso há um ditado popular que diz a seguinte barbaridade: quem sabe faz, quem não sabe ensina! Não conheceram o monge Beda. Praticar é a garantia de que o ensinamento tem consistência. Se você ensinou uma pessoa a cozinhar, submeta-se imediatamente a saborear a comida que ele fez. Acredite na sua capacidade de transmitir conhecimento. Mas, infelizmente, há os que renunciam ao ato de fazer e por isso passam a noção de descrédito a si mesmos. Quando eu tinha dez anos, meu pai me mandou ao posto de saúde para aprender a aplicar injeção. Parecia uma loucura uma criança aprender a aplicar injeção. Nunca tive autorização para aplicar injeção. Não posso exercer esta função. Sei, até hoje, aplicar injeção intramuscular. Tive um excelente professor, Sr. Chiquinho do posto. Ele acreditava tanto no que fazia e ensinava que a minha prova final foi aplicar uma injeção no braço do mestre. Este sabia e praticava.

TERCEIRA LIÇÃO: ignorar e não perguntar. A soberba manda fazer isso! A pessoa não sabe e não quer que os outros saibam que ela não sabe. Assim, permanece ignorante, nutrindo a felicidade provocada pelo bem-estar, ao pensar que os outros pensam que ela sabe.

A cada dia que passa, saberá menos, será um profissional pior e restará, apenas, ficar murmurando porque ninguém a contrata.

No passado, naquele tempo em que a vovó do leitor ou leitora ainda era nova, seria comum ouvir a frase orientadora do comportamento dos netinhos: - menino bonito e menina bonita não devem ser curiosos. Também não conheceram o velho monge! Ignorar e não perguntar é a maior fábrica de desempregados e despreparados do planeta. Como tudo muda e nada permanece, para relembrar o filósofo grego Heráclito, quem não for curioso, não conseguirá coisa alguma na vida.

Não tenha medo de perguntar, mesmo que toda a educação vinda de casa e das escolas tenham nos ensinado sempre a responder.

Um pouco de humildade faz bem. Esta atitude permite que reaprendamos além de muitas fronteiras.


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