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Menos, doutor

Por George dos Santos Pacheco
23/09/20 - 16:06

A praça estava lotada. Centenas de correligionários se aglomeravam a cotoveladas para ouvir o discurso do candidato. Ele era quase um pop star, amado, idolatrado (salve, salve!) por homens, mulheres e crianças, que cantavam o jingle de campanha agitando bandeirolas nas mãos exaltando como ele merecia o seu amor.

No palanque, também se amontoavam empresários, líderes de partido, candidatos a vereador (almejando migalhas de sua popularidade), e membros da equipe reforçando os últimos detalhes e dicas sobre postura, sobre a pauta do discurso, a empostação da voz, além de combinar sinais que seriam utilizados no decorrer de sua preleção.

Gravata arrumada e gel nos cabelos, o presidente da associação de moradores (também candidato) anunciou a autoridade – com todos os títulos que ele merecia e não merecia – rasgando sedas, cetins e bordados, sendo ovacionado ao final. Mas ele sabia que as palmas não eram pra ele.

– Meus amigos, minhas amigas, minhas queridas crianças! Hoje é um dia especialíssimo para mim. É um prazer inenarrável... – começou o candidato, cheio de eloquência, sendo imediatamente corrigido pelo assessor logo atrás dele.

– Menos, doutor... – disse o rapaz, formado em comunicação social e o cacete a quatro. Afinal, estavam em uma comunidade de gente simples, usar um vocabulário rebuscado poderia ter um efeito nocivo no discurso. O candidato entendeu e prosseguiu.

– É um grande prazer estar com vocês esta noite! Quando me tornei candidato, quis unicamente me dedicar ao serviço do povo. – Continuou, enquanto o palco se enchia cada vez mais de papagaios de pirata querendo aparecer na foto.

– Mais, doutor! – recomendou novamente o assessor às suas costas. Ora, qualquer um que entra para a política deveria usar como motivação o serviço ao povo. Ah, mas para se eleger é preciso muito mais!

– Foi como um sonho – melhorou o discurso no ato – um sonho de ser para a minha comunidade, para a minha cidade, o que o farol é para o navio. E nunca se fez política assim aqui, meus amigos! – parou, enquanto bebia um copo d’água, sendo aplaudido incansavelmente.

– Doutor, o senhor poderia chegar só um pouco mais pra frente? O palanque está ficando cheio com seus aliados. – Sugeriu o assessor. O homem apenas balançou positivamente a cabeça, após limpar o lábio superior com o restinho da água e voltar à sua preleção.

– Se eu for eleito, vou pavimentar as ruas deste bairro!

– Mais, doutor... – disse o rapaz. Asfaltar ruas, qualquer um pode prometer. É preciso mais do que isso para ganhar votos, embora tanto ele como o candidato soubessem que não era possível cumprir todas as promessas que fazia. O povo também sabia, mas gostava de ouvir isso.

– Não haverá ruas sem calçamento neste bairro ou em qualquer outro. Vamos urbanizar esta cidade, do jeito que o povo merece! – incrementou, seguindo religiosamente as orientações de seu jovem assessor.

– Mais, doutor! – repetiu o rapaz, em meio aos vivas que o povo dava, batendo palmas e tremulando estandartes. E o candidato chegou-se mais pra frente.

– Se eu for eleito, será construída uma escola aqui no bairro, para essa criançada bonita poder estudar. O futuro, meus amigos, só se faz com educação de qualidade! – continuou, com eloquência, sacudindo o punho cerrado ao alto. E chegou-se mais pra frente.

– Mais, doutor! – sugeriu novamente o rapaz, empolgado com a reação do público, mas seu chefe aproximava-se perigosamente da borda do palanque.

– Se eu for eleito... – prosseguiu o candidato, sem ter tempo de concluir a frase.

– Menos, doutor! – gritou o assessor, ao perceber o perigo, mas era tarde. O homem mergulhou com títulos, promessas, microfone e tudo no meio da multidão. O alvoroço foi geral, no palanque e abaixo dele.

“Mais, doutor...", pensou friamente e com perspicácia o rapaz enquanto o chefe era socorrido. Em vez de um tombo, fez correr a notícia de que o homem havia terminado o comício carregado nos braços do povo! Ora, mas vejam só. Foi como transformar areia em vidro, carvão em diamante! Talvez por isso tenha sido eleito. Ou não. Vai saber?

Ora, ora, mas vejam só: nem sempre, menos é mais!


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