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Deixa Rolar

Por George dos Santos Pacheco
15/07/20 - 10:40

“Jogaram uma pedra na tranquilidade do lago. O lago comeu-a. Sorriu ondulações. Voltou a ficar tranquilo”. Hermógenes

A fila do hortifruti estava grande, mas as pessoas mantinham uma distância segura. Apesar disso, era impossível deixar em segredo meu soluço. De cinco em cinco segundos, nada mais, nada menos, o espasmo involuntário e impertinente surgia, causando suspensão de fluxo em minhas frases, respiração e pensamentos. O cara da frente, um jovem barbudo, de calça larga indiana e ares ripongas olhou para trás antes de passar no caixa.

– Soluço é chatão, né, brother? – disse ele com a voz arrastada.

– Pô, nem fala, irmão. – respondi, calculando o tamanho da frase para caber entre uma aspirada de ar e outra.

– Aí, bacana, vou te ensinar uma manha que aprendi com minha mãe quando eu ainda era um piazinho... – disse quando entregava o cartão à caixa.

– F-fala. Hic! Fala!

– Deixa rolar... concluiu, pegou o cartão, as sacolas de compras e se mandou.

Fiquei soluçando ali com um sorriso meio bobo, meio pasmo, tentando absorver a saída do meu mais recente amigo (que eu não voltaria a ver novamente). A moça do caixa ria com deboche enquanto passava meus itens. Pô, eu me acabando de soluçar e o cara me vem com uma dessas.

“Deixa rolar...”? Mas foi aí que me lembrei de como minha mãe fazia conosco quando a gente era criança. Colava uma bolinha de algodão úmida na testa.

Incrédulos terráqueos. O que minha mãe fazia com a bolinha de algodão era deixar rolar. A intenção do ato não era submeter o filho a uma simpatia ou crendice, era desviar a atenção do soluço para a testa... e voilà! O soluço passava sozinho que eu nem percebia – da mesma maneira como ele chegava.

Se você não gosta de temperos e vai comer na casa de alguém, já reparou como encontra pedacinhos de cebola frita, que logo vão parar na beira do prato? Simplesmente porque seu foco está voltado para isso. Para de se preocupar com a cebola pra ver o que acontece. Ou então, quando se compra um relógio de pulso novo. Reparou como se esbarra ele a todo momento em algum móvel? Para de se preocupar com a integridade dele para ver o que acontece.

É incrível, mas o segredo de todas as coisas sempre esteve dentro de nossas cabeças. Eu já falei aqui, mas não custa repetir. A maioria dos nossos problemas pode (e deve!) ser resolvido por nós mesmos e melhor que isso, às vezes, resolvem-se sozinhos. Basta que colemos uma bolinha de algodão na testa.

Seu namorado te deu um fora? Deixa rolar.

Deu uma topada com o dedão? Deixa rolar.

Seu produto não foi entregue? Deixa rolar.

Isso não quer dizer que algumas ações não devem ser tomadas em certas ocasiões para corrigir a inconveniência, admito, antes que me acusem de demagogo. Mas isto é exatamente a bolinha de algodão. Façamos como o lago que absorve a perturbação da pedra e volta a ficar tranquilo. Não permitamos, meus caros, que nada perturbe nossa paz. Nem mesmo um soluço.

Deixa rolar.


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