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Deixa essa noite saber

Por George dos Santos Pacheco
08/06/22 - 10:43

“Às vezes eu me sinto tão sozinho, com a cabeça fora do lugar. Aí chega você pra confundir tudo de novo. E eu não sei o que você quer...” (Dalto)

Era cerca de duas horas da manhã. Largara há pouco do plantão extenuante no sistema de câmeras, paladino da segurança da empresa (e da “proba reputação” dos funcionários) em todos os corredores e salas, pátio de expedição e onde mais se possa imaginar. A noite de outono possuía um céu incrivelmente limpo, salpicado de estrelas no negrume da lua nova, com um ar tão auspicioso que a leve brisa tinha um poder balsâmico e quase milagroso. Àquela hora, quase ninguém circulava pelo centro da cidade; podia, caso quisesse, deitar-se nas lajotas da Alberto Braune sem o inconveniente de ser atropelado.

Caminhava arrastando os pés pela calçada, champrudo e um tanto sonolento. Apesar de um sem número de xícaras de café, a mente vazia pelo cansaço. Desejava apenas chegar em casa e atirar-se na cama, dormir até o mais alto do sol, sem alarmes, avisos, sacudidelas nos ombros. Abriria a porta com cuidado, sem tilintar as chaves, a mulher cumpria um expediente comum no escritório de contabilidade, e já estaria no décimo quarto sono a uma hora dessas. Uma santa!

Ao longe, ouvia-se um cantar de pneus e um motor se distanciando; alguns caminhões com carga de cimento resfolegavam impacientes numa avenida paralela. Havia, porém, algo mais que chamava a atenção… um som, diverso dos demais, se aproximando. Um trinado fino e intermitente, o toque de um telefone público, tão démodé nestes tempos de telefonia móvel, redes sociais e internet. Foi desacelerando os passos, na dúvida do que faria, inclinando o rosto na direção do aparelho. Parou por um breve momento e caminhou até ele, indeciso, tirando, enfim, o fone do gancho.

– Alô? – chamou em reticência.

– Eu estou tão sozinha… – murmurou a mulher num certo tom fescenino e lamurioso.

– A senhora quer falar com alguém, quer alguma ajuda? – redarguiu ele, ainda confuso com episódio tão insólito.

– Por que não vem aqui? Eu estou tão sozinha… – sugeriu persuasiva, numa nota insistente.

– Desculpe, eu… eu…

– Olhe para o prédio em frente. Há uma janela com a luz acesa, no terceiro andar. Apartamento 304. A porta vai estar aberta. – explicou a mulher e desligou. O homem tetanizou com o fone na mão, o toque do fim da ligação ecoando na linha. Apoiou-o no gancho, suspirou e olhou para a direção indicada, cofiando a barba por fazer, tomada de pelos prateados. Um vulto o encarava por trás da folha de vidro, oculto na penumbra e nos mistérios da noite.

Sentia o corpo vibrar, o coração acelerado, a respiração ofegante. A esposa o aguardava em casa, em fiéis sonhos, num sono inocente. Uma santa! Casta e virtuosa, dedicara-lhe os verdes anos de sua juventude. Como não amá-la? Como também não entregar-se àquela súbita aventura, tão excitante e sibilina? Quem haveria de saber?

Atravessou a rua, no sentido do prédio determinado. O portão do saguão estava convenientemente destrancado, o silêncio quase sepulcral era interrompido apenas pela estática de algum aparelho eletrônico num lugar qualquer. Subiu as escadas decidido, mas no último quartel, sentiu vacilar, a consciência pesando quanto mais ofegava. Afastou de vez a última réstia de escrúpulos, meneando a cabeça negativamente e procurando o número cravado numa chapa de metal com aspecto colonial. Eivado de emoção e lascívia, empurrou a porta entreaberta, girando as dobradiças bem lubrificadas e silentes.

Era um apartamento antigo, cujos detalhes não podiam ser melhor examinados pela ausência da claridade, que subsistia apenas pela parca iluminação exterior. Pé ante pé, seguiu por um diminuto corredor, alcançando rapidamente a ampla sala, onde a mulher aguardava, sentada em uma poltrona individual, de pernas cruzadas, vestida apenas com uma fina camisola negra de cetim.

– Eu estou tão sozinha… – murmurou novamente, como numa frase ensaiada e decorada, apoiando a taça de vinho tinto na mesinha de canto.

– Não mais, creio eu. – objetou esboçando um sorriso voluptuoso e solerte, a maltratada bolsa a tiracolo contrastando com a atmosfera de sedução.

– Você me acompanha na bebida? – perguntou a mulher, erguendo-se em passos descalços, num falar arrastado e atraente.

– Não temos tempo a perder, não acha? – argumentou ele, dirigindo-se à mulher, mas travou num sobressalto, ao perceber no lado oposto que não estavam à sós: sentado em uma poltrona semelhante, havia um homem: imóvel, seus braços estendiam-se nos apoios, a cabeça inclinada para a frente, mantinha o queixo tocando o peito nu, a barriga protusa saltando sobre o short curto.

– Ele? Ah, não se preocupe, meu bem. Não fará mal algum a nós…

– Ele… ele está… morto?

– Não seria desmerecido.

– O que você quer?

– Eu estou tão sozinha…

– Você o matou?

– É como eu disse, não seria desmerecido. Ele não era lá um marido íntegro e reto, por assim dizer… as marcas no meu corpo confessam. Mas ele não me fará mais mal algum, a mim ou a qualquer outra. E essa noite vai saber que eu não pertenço e nunca pertenci a ninguém! – proclamou a mulher, explodindo numa gargalhada funesta e sombria, as lágrimas correndo pela face intumescida e marcada de hematomas.

Assustado, o homem girou nos calcanhares, atravessando a porta em velocidade, ofegante, ignorando degraus, oportunidades, a efêmera lascívia. Podia, de fato, todas as coisas, mas nem tudo lhe convinha. Desejava, agora, apenas chegar em casa e atirar-se na cama, acordar com a mulher que lhe dedicara os verdes anos da juventude.

Era pouco mais de duas horas da manhã. A noite possuía um ar agradável, o céu era um manto negro coberto de estrelas. Um telefone público tocava insistentemente, embora houvesse pouquíssimas pessoas nas ruas àquela hora. Um jovem caminhava preguiçosamente pela calçada, escoteiro e enebriado, após uma noite de farra com os amigos; um sorriso remanescia-lhe insistente no rosto quase imberbe, alumiado pela parca iluminação pública.

– Alô?

– Eu estou tão sozinha…


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