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A Resistência

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Por George dos Santos Pacheco
20/05/20 - 10:06

Ah... coisa boa mesmo é chegar em casa, após um longo e extenuante dia de trabalho, e tomar aquele banho quente! Ainda não inventaram algo mais revigorante, não acham? Pois, eis que naquele fatídico dia, véspera de feriado, cheguei em casa, cumprimentei Dona Maria e as crianças e, sem muita conversa, parti para a ducha! Jato de água temperado na opção “inverno" – o outono por aqui não costuma ser muito benevolente – cantarolei “Menina Veneno" (sabiam que o abajur é cor de carmim?), sem me preocupar muito com a conta de luz. Quando o mundo se tornou pequeno demais pra nós dois, houve um diminuto pipoco no aparelho e água esfriou repentinamente... Putz! O chuveiro havia queimado!

Faço o quê, agora, todo ensaboado, caros terráqueos? Poxa, logo eu que levanto cedo todo dia para a labuta... Ora bolas, eu merecia um banho quentinho! Mas o que mais eu poderia fazer? Concluir o banho com água fria mesmo. E vejam, até que não foi tão ruim assim não. Vocês sabiam que a água fria estimula a circulação sanguínea, e também o sistema nervoso para ser mais resistente ao estresse e a adversidade? E ainda emagrece!

Naqueles pentelhésimos de segundos em que fiquei refletindo antes de seguir em frente, com uma ponta de inveja da minha família por eles terem tido a experiência de um banho quente (que eu não tive), pensei... caramba, mas quem é que nunca passou por isso? Quem nunca ficou na fila de São Cosme e Damião pra pouco antes da sua vez o dono da casa gritar que acabou o doce? Quem nunca furou o pneu do carro no caminho de um compromisso importante? Quem nunca esteve com o almoço quase pronto e o gás acabou? Quem nunca saiu atrasado de casa e se deparou com o ônibus largando do ponto... gritou, gritou, mas ficou para trás?

Todo mundo já passou por uma coisa ou outra. E vamos continuar passando. Os infortúnios nossos de cada dia. Mas o que fazer diante dessas coisas? Seguir em frente, ô, cara pálida. Eu podia ter ficado lá debaixo do chuveiro reclamando, choramingando, pedindo ajuda, mas enfim, o melhor caminho é seguir, concordam ou desconcordam? É evidente que não gostei nem um pouquinho da adversidade, mas praguejar contra o percalço também não adianta. Além do mais, como a gente já está cansado de saber, não há mal que dure para sempre, há males que vêm para o bem e qualquer fardo fica mais leve de se carregar se conduzido com bom humor. Vamos lá! A gente está habituado – até porque fomos doutrinados a isto – a sermos muito dependentes uns dos outros, do Governo inclusive. Somos seres sociais, eu sei, mas a maioria dos nossos revezes podem (e devem) ser resolvidos por nós mesmos. Felizes e sorridentes, sem reclamar.

O que quero dizer – se é que digo alguma coisa – é que não pode ser uma resistência queimada a tirar minha paz. Nem o pneu furado, a condução perdida. Ao invés de murmurar, vamos agradecer. Nada disso pode nos impedir de seguir em frente. E o nome disso é resiliência: palavra que tem origem na Física, propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica. O conceito é amplamente utilizado como a virtude de se recobrar facilmente ou se adaptar às mudanças. E não há nenhum mistério nisso, na verdade, é como banho frio: uma questão de hábito.

Terminei a ablução com a água fria, mas para ser franco, tive que mudar a música. “Menina Veneno” ficou subitamente muito grande.


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