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Outro mundo é necessário

Enquanto não tivermos outro mundo em vista, este, tal qual conhecemos, irá fenecer

Por Conrado Werneck Pimentel
23/08/19 - 17:55
Outro mundo é necessário Queimada em região da Amazônia, agosto de 2019 | Foto: Reprodução/Agência Brasil

Para aqueles que são críticos ao governo Bolsonaro – e, para estes, não faltam bons motivos para críticas – a situação das queimadas em larga escala na floresta Amazônica É facilmente identificável como um descaso absoluto do atual governo. Os que veem a situação por este prisma estão parcialmente corretos. Explico.

É tentador e, em partes, justificável, que as falas do presidente e do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, demonstrando total negligência à preservação da fauna e flora brasileira, sirvam como alvo das críticas: as palavras, por vezes, valem mais do que ações institucionais. Se o presidente da República Federativa do Brasil afirma que instituições que medem o desmatamento em território brasileiro mentem sem apresentar provas disso, quem mente é o presidente da República. Se o mesmo afirma que ONG’s estão por trás dos focos de queimada que lambem parcela da Amazônia brasileira sem apresentar provas sobre isso, quem mente, mais uma vez, é o presidente da República. E o presidente da República, em tese, não poderia fazer isso. Ao mentir, o presidente da República abre brecha para, quem pensa como ele, se sentir no direito de agir – no caso, a ação no campo da mentira. Espetaculosos, sentem-se autorizados a agirem – afinal de contas, estão amparados, nada mais, nada menos, sobre as palavras do presidente da República. Não é qualquer pessoa: é o presidente da República que, pelo que tem feito e falado, está acima do conhecimento técnico e científico de instituições nacionais e internacionais. O presidente da República e seu ministro do Meio Ambiente acham que a proteção ambiental impedem o desenvolvimento do país. É a senha que ruralistas, madeireiros e grileiros aguardavam: não é necessário um Ato Institucional ou uma Medida Provisória para explicitar e tornar lei esse absurdo: é só falar sobre, de forma jocosa e até mesmo nos contornos de uma bravata, mostrar conivência e até simpatia pela ideia, e lá se vão algumas centenas de hectares tornados em fuligem.

Pois bem: é bem plausível que as queimadas sejam criminosas. E, mais do que plausível, o problema que estamos enfrentando não é um problema estritamente deste governo. É um problema sistêmico, de seu modo de produção e de consumo. Se centenas de hectares são queimados para aumento de áreas de pasto; se, estas mesmas e tantas outras centenas de hectares de florestas são queimadas para dar espaço à monocultura do agronegócio; são questões incontestes do sistema capitalista em que vivemos.

Capitalismo não combina com sustentabilidade, assim como não há capitalismo possível que combine com a democracia. Enquanto mantivermos um sistema que, em sua essência, é predatório e exploratório, tenderemos ao esgarçamento não só das relações sociais como um todo mas também do constante desequilíbrio do meio ambiente. Simplesmente não é possível que um planeta se sustente por muito tempo tendo os padrões de produção e consumo que temos sob o sistema capitalista. Se quisermos que exista um planeta possível para netos, bisnetos – ou, se preferir, para a raça humana – é necessário mais do que repensar o sistema capitalista. É preciso mudá-lo radicalmente, sem as falsas feições de um capitalismo com rosto humano.

No mundo de hoje, as forças produtivas se tornaram, em suma, forças destrutivas. Um sistema que, para atender às necessidades sociais, mais destrói do que produz, é um sistema ecocida. Há de se repensar, portanto, este sistema como um todo. Não sou eu quem diz isso: Michael Löwy, brasileiro radicado na França, diretor de pesquisas no Centro Nacional de Pesquisa Científica – o maior órgão público de pesquisa francês – é crítico marxista e aposta num conceito-chave que emerge na crise ecológica e social que estamos vivendo: o ecossocialismo, uma crítica às bases da civilização moderna que nos colocam à beira do abismo.

Já de antemão deixo de sobreaviso que, nos próximos meses, irei tratar do ecossocialismo na coluna para juntos pensarmos: outro mundo é mais do que possível, é necessário. Cada vez mais, a questão que nos é colocada não é a cidade ou o mundo que queremos, mas sim a cidade ou o mundo que precisamos. Caso contrário, não haverá espaço possível para qualquer desejo, sonho ou potencialidade humana para ser realizada.


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