O Brasil de Bolsonaro

O presidente quer um país à sua imagem e semelhança

Por Conrado Werneck Pimentel
13/05/19 - 09:59

Não é novidade alguma – ou, ao menos, não deveria ser – que o presidente eleito, desde o período das eleições, demonstrou claramente algumas de suas limitações como político. Tendo em vista que, para tal, existe certa constelação de características do homem público que age no sentido da contenção de animosidades ou na própria finalidade da política. A distinção entre “viver da política e “viver para a política”, por exemplo, é uma noção clássica do sociólogo Max Weber (1864-1920). Quase autoexplicativo: enquanto o primeiro se sustenta na política como forma de obtenção de renda, o segundo a vive como uma questão de foro íntimo, que está à serviço de algo, e não se servindo dela.

Já é bem sabido que o presidente da República não age no sentido de conter animosidades ou de gerar consensos democráticos, ou de como ele e seu clã familiar servem-se da política para enriquecimento. Tão bem sabido que, vale lembrar quando escrevi aqui, sobre suas falas sobre o tratamento a “vermelhos” (vejam bem: não fui eu quem disse, foi o próprio). Não são precisos malabarismos para poder enxergar que as atitudes do presidente – e o aval que dá a seus ministros – relativas ao ataque a universidades públicas – em especial, na área das ciências humanas – ou ao meio ambiente tem como referência a eliminação do outro, do diferente. Trocando em miúdos, é a negação da alteridade, ou seja, repele-se a relação com aquele que é diferente, aquele que é o outro. Quando não há alteridade, existe a vontade de eliminação – eliminar aqueles que têm outra crença que não a minha, outra educação sexual que não a minha, outro posicionamento político que não o meu.

Bolsonaro quer que o Brasil seja à sua imagem e semelhança: a marca que ele deixará para sempre nos compêndios da história será, acima de tudo e de todos, não Deus (o dele) nem a pátria, mas o empobrecimento geral da população, e não só em termos econômicos, mas também em termos de direitos e de dignidade: a terra arrasada da educação através de chantagens explícitas referentes à Reforma da Previdência, a exploração de recursos naturais através de leis mais flexíveis – quando deveríamos ter mais rígidas – e a expansão de categorias que não precisam de justificativa para o porte de armas são retratos do presidente. Simplesmente não há compromisso com a res pública, ou, com a coisa pública, nem com a democracia. A extinção de conselhos importantes na formulação e acompanhamento de políticas públicas – uma das ferramentas mais capilares de participação popular e engajada, com técnicos, empresários e políticos – é mais uma faceta do quanto o presidente não tem capacidade – nem necessidade - de pensar a si mesmo como um outro. Um outro que não vive da política, que não tem necessidade de atendimento básico à saúde, que sofre violência obstétrica, que tem sua vida sentenciada à morte pela cor da pele e pelo CEP. Bolsonaro não precisa do INSS, nem de aposentadoria. Bolsonaro viveu e vive da política – é incapaz de ter distanciamento o suficiente para compreender a necessidade de garantia dos direitos mais básicos à população. O presidente não precisa se colocar no lugar do outro: ele é alheio a esses direitos pois não precisa deles. É essa a imagem e semelhança que ele deseja para o país: que seja negligente e indiferente com o outro, que a lei do mais forte impere, que somente os outros façam sacrifícios.

Esse novo Brasil nada mais é do que um velho Brasil, carcomido por estruturas violentas e que garantem a manutenção de desigualdades sociais. O Brasil do faroeste com pistoleiros, grilagens, perseguições políticas e sucateamento seguido de venda de bens públicos e de direitos sociais. Esse Brasil é conhecido e, na verdade, nunca deixou de existir. Vivíamos em uma ilusão e agora vivemos em um pesadelo.


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