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Nada será como antes

É hora de rever nossos conceitos como indivíduos e como sociedade

Por Conrado Werneck Pimentel
30/03/20 - 18:15

O que o futuro guarda para nós ainda é um mistério. Mas o que cabe a nós perceber e admitir é que nada será como antes. Temos em vista uma oportunidade nunca antes vista dentro de gerações. Pretender um retorno à normalidade após uma pandemia global é, no mínimo, incongruente com o que se pode almejar para um futuro melhor. Da parte de alguns, pode-se dizer que há má-fé; de outros, apenas um raciocínio que aparenta ser lógico, mas que bate de frente com a dura e crua realidade.

É explícito e cristalino que, aqueles que bradam pelo retorno à normalidade do comércio e do dia-a-dia da população, acham que é possível esse retorno à normalidade. A “normalidade” a qual estavam acostumados, na realidade, é uma anormalidade: não precisávamos da existência de uma batalha contra um inimigo invisível para percebermos o quanto estávamos errados, enganados, iludidos e falidos moralmente. Já não é mais bem visto nem bem quisto os que saem em seus carros de luxo em carreatas clamando a população para voltar às suas vidas normais, “fazer a economia girar” em meio a pandemia do coronavírus. De empresários a representantes em cargos na administração pública. Temos aqui um exemplo claro de uma das grandes oportunidades que temos enquanto sociedade: a valorização do conhecimento técnico-científico, que já há bastante tempo vem sido maltratado e vilipendiado por adoradores de teses do “politicamente incorreto”, da fé pueril e fundamentalista em falsos messias, no anticientificismo abjeto e na prospecção desumana do lucro que nos leva cada dia mais próximos da barbárie.

Sofrem, estes, do medo das “fantasmagorias urbanas”, termo tratado pela socióloga Vera Malagutti para explicar o medo de que “a favela vá descer”, ou os assombros das revoltas dos escravos no passado. A fantasmagoria perpassa as incertezas do futuro e permite que esse medo seja evocado e ganhe corpo na sociedade e nas instituições. Têm medo, também, de que a empregada doméstica não retorne para os afazeres diários; que não exista quem sirva às mesas e clientes; sobressaltam-se em pensar que possa haver um aumento da desigualdade social e da violência – e esse sobressalto não é, contudo, um pensamento voltado ao bem coletivo, mas sim pelo que é passível de ser rompido, tomado ou destruído – sua propriedade particular, seus meios individuais de locomoção, seus vinhos, seu lifestyle; enfim, o status quo, colocado à prova e que, neste momento, põe-se nu diante de todos, revestido de aparente sofisticação meramente ilusória. Há, aqui e agora, neste momento, uma oportunidade concreta de melhoria e desenvolvimento indistintos. Se não houver nenhuma mudança, certamente sairemos dessa piores do que entramos, como sociedade. Não está claro o suficiente que a saúde pública, neste caso, deve ser um direito respeitado e fortalecido por todos? O que mais será preciso para percebermos que a vida vem acima dos lucros?

Este momento também é uma oportunidade para entendermos melhor o que é viver em uma sociedade, o que é o coletivo. As responsabilidades que carregamos diariamente não se limitam – ou não devem se limitar – à esfera privada de nossas vidas. Carregamos em nossos ombros tanto o indivíduo quanto o coletivo. Um não existe sem o outro. Se não há solidariedade, torna-se um fardo, e não algo que mereça ser compartilhado com todos. Afinal de contas, a vida em sociedade cristalizou-se justamente porquê juntos temos maior capacidade de sobrevivência e de evolução. Devemos nossa existência e todos os avanços como sociedade a esse grande agrupamento que somos, quase que há tempos imemoriais. É bem verdade que os retrocessos que vemos e vivemos também são por esse grande aglomerado heterogêneo de formas de agir e de pensar, mas a diferença entre um e outro é que, ao cabo e ao rabo, temos a oportunidade de tomarmos decisões que influam positivamente no nosso desenvolvimento. Definitivamente, ir contra recomendações médicas – de uma simples dor de garganta a uma complexa pandemia global de um novo vírus – é algo ilógico, irracional e danoso a si mesmo e a outros. Enfim, um contrassenso que, ultimamente, muito tem se utilizado.

Esse obscurantismo baseado no egoísmo típico da sociedade capitalista não pode mais caber num futuro não muito distante. Aqueles que, por ordem monetária, moral ou política, pregam o retorno à [a]normalidade estão, na verdade, vivendo tempos obscuros e, com eles, querem arrastar a tudo e a todos: sua razão foi obnubilada. E não é porquê todos esses estão com a visão turva que todos precisamos seguir o mesmo caminho. O contraponto há de ser feito, o tempo todo, em todos os espaços. Deixar que estes pensem e ajam no futuro será a derrocada de um projeto minimamente civilizacional. O momento é de profunda reflexão do papel que exercemos em nossos espaços privados, nos espaços públicos, na forma como nos portamos, até então, como sociedade, e o que podemos tirar de aprendizado a partir deste momento inédito na história da humanidade. E, quando despertarmos desse momento onírico, que o seja para lutar pela nova realidade que se impõe, e não pelo que sonham por nós em um mundo que não mais existe.


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