Pesquisador da UFRJ fala sobre os riscos do vírus mayaro, identificado no estado do Rio

Endêmico da Região Norte, mayaro é um vírus de floresta que tem sintomas semelhantes à febre chikungunya

Por Sara Schuabb
23/05/19 - 15:53
Pesquisador da UFRJ fala sobre os riscos do vírus mayaro, identificado no estado do Rio A Região Serrana favorece o aparecimento desses vírus porque é repleta de florestas | Foto: Banco de Imagem

Pesquisadores do Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) detectaram, na última semana, um novo vírus no estado do Rio de Janeiro, denominado mayaro. Endêmico da Região Norte do país, tem os mesmos sintomas que o chikungunya - febre alta e dores articulares crônicas, o que pode gerar confusão na tentativa de diagnóstico clínico.

Segundo o pesquisador Rodrigo Brindeiro, três casos positivos do vírus foram detectados em Niterói a partir de uma reavaliação das amostras da epidemia de chikungunya que ocorreu no estado do Rio em 2016. O objetivo agora é reavaliar as amostras que deram negativo das epidemias atuais para saber onde o vírus está prevalecendo.

Confira mais detalhes na entrevista do Portal Multiplix com o pesquisador da UFRJ Rodrigo Brindeiro:

Portal Multiplix - O que se sabe sobre o vírus mayaro?

Rodrigo Brindeiro - O mayaro é um vírus primo do chikungunya. Eles são vírus diferentes, mas da mesma família: Togaviridae. Foi descoberto em Trinidade e Tobago, em 1956, e alguns anos depois foi visto em Belém, no Brasil, e é endêmico da Região Amazônica, sendo encontrado na Venezuela e em vários outros países da América, portanto, já conhecemos relativamente sua história. Na verdade, o vírus em que ele está adaptado naturalmente é o hemagogo, da floresta, exatamente o mesmo que transmite a febre amarela, que também não esperávamos que chegasse novamente na Região Sudeste. Como sabemos, recentemente tivemos vários casos de febre amarela na região, e uma febre amarela eminentemente silvestre. Ela está conosco aqui, mas ainda não se adaptou como outros mosquitos urbanos, como aedes aegypt, mas pode vir a se adaptar.

Portal Multiplix - Como foi descoberto no Rio de Janeiro?

Rodrigo Brindeiro - Os três casos que detectamos em Niterói são da amostra da primeira epidemia, em 2016. Tínhamos 279 amostras, com quadro clínico de chikungunya e 57 não deram diagnóstico positivo, mesmo com todas as características. Quando as revi, encontrei três casos positivos para Niterói. Então, provavelmente o mayaro está por aí como a febre amarela, mas ainda não de forma cosmopolita nas regiões urbanas, como o Aedes. Ele está em Niterói, mas poderia estar aqui no Rio porque essas cidades são permeadas de florestas urbanas, daí a proximidade com o problema. A Região Serrana, por sua vez, como o próprio nome diz, favorece o aparecimento desses vírus porque é repleta de florestas e ambientes rurais. Vale lembrar que a febre amarela, por exemplo, apareceu primeiro em Casimiro de Abreu, em cidades dessas regiões, que são vicinais a florestas. O vírus já está aqui, não foi importado de uma viagem. Essas amostras são de 2016, e é preciso, agora, junto com a Secretaria de Estado do Rio de Janeiro e com o Ministério da Saúde, rever a atual epidemia no Rio de Janeiro e reavaliar as amostras que estão dando negativas no laboratório e quantas delas são mayaro. A partir daí, poderei dizer a prevalência das cidades do Rio de Janeiro e também se repete-se agora nessa nova epidemia de 2019.

Portal Multiplix - Quais são os sintomas?

Rodrigo Brindeiro - Do ponto de vista dos sintomas, você não diferencia o mayaro do chikungunya a partir do quadro clínico, de febre alta, dores de cabeça e articulares crônicas, que podem durar semanas, meses e ou um ano. A importância é definir o diagnóstico. Agora, dentre o quadro de indefinição de acusamento de chikungunya, podemos ter, na verdade, o mayaro circulante. Ao que parece, ele está em uma pequena proporção, se confundindo com chikungunya.

Portal Multiplix - Qual é o tratamento?

Rodrigo Brindeiro - Existe tratamento. É sintomatológico e realizado na clínica de reumatologia para tratar as dores crônicas, articulares e musculares.