Nove municípios da Região Serrana não dispõem de mamógrafo

Em Nova Friburgo, Hospital Raul Sertã está sem aparelho. Quem precisa marcar exame reclama da demora para conseguir fazê-lo

Por Sara Schuabb
25/06/19 - 12:16 | Atualizada em 25/06/19 - 18:13
Nove municípios da Região Serrana não dispõem de mamógrafo Mamografia é o melhor caminho para detectar o câncer de mama, tumor mais frequente entre mulheres no Brasil | Foto: Banco de Imagem

O câncer de mama é o tumor mais frequente entre as mulheres no Brasil e no mundo, correspondendo a cerca de 25% dos casos novos a cada ano. No Brasil, esse percentual chega a 29%, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Ainda de acordo com o instituto, só em 2018 foram registrados 59.700 casos desse tipo de câncer no país, o que representa um aumento de 29,5% em relação ao ano anterior.

Para a Comissão Nacional de Mamografia, integrada pelo Colégio Brasileiro de Radiologia, pela Sociedade Brasileira de Mastologia e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, o aumento do câncer de mama no país decorre da falta de programas de rastreamento adequados ou da baixa adesão da população aos programas oferecidos – principalmente devido à falta de informação.

A mamografia é o único exame que contribui para a redução da mortalidade para esse tipo de câncer. Segundo levantamento da Comissão Nacional de Mamografia feito em 2017, os municípios de Bom Jardim, Cantagalo, Macuco, Duas Barras, Sumidouro, Silva Jardim, Santa Maria Madalena, Trajano de Moraes e São Sebastião do Alto, na Região Serrana, não dispõem de mamógrafos, seja na rede pública ou privada. Quem precisa fazer o exame pelo SUS tem que recorrer às cidades de Carmo, Cordeiro, Nova Friburgo, Petrópolis ou Teresópolis.

Porém, apesar de a maioria dos municípios não ter o equipamento, a pesquisa aponta que a necessidade anual pelo exame na Região Serrana é inferior à capacidade de oferta. De acordo com o levantamento, a demanda por mamografia é de 48 mil testes por ano enquanto a capacidade de oferta pelos aparelhos existentes em hospitais municipais e clínicas particulares é de 111.114 exames.

Dificuldade para marcar exame pelo SUS em Nova Friburgo

Por outro lado, quem precisa reclama da dificuldade para marcação através do SUS. É o caso da vendedora autônoma de Nova Friburgo, Lucimar Medeiros. Ela precisa fazer mamografia de seis em seis meses por ter cistos na mama e não tem feito o exame por conta do valor, que é caro - custa em torno de R$ 180 a R$ 200 na rede privada -, por conta da demora no atendimento.

“Como ultimamente não estou com plano de saúde, tenho que fazer pelo SUS, mas é uma dificuldade muito grande, porque demora no atendimento inicial, depois o médico ainda tem que fazer o encaminhamento, agendar e esperar a liberação dos exames e, às vezes, demora mais do que seis meses todo esse processo. E como o exame é muito caro, não fiz nem o do ano passado, por conta também da demora do SUS e toda essa dificuldade”, diz.

A Secretaria Municipal de Saúde de Nova Friburgo informou que 3.199 mamografias foram realizadas em 2018. Dessas, 2.090 foram de rastreamento - entre 50 e 69 anos. As demais, mamografias diagnósticas, que apresentam evidências clínicas e precisam do exame para confirmação do diagnóstico. Ainda de acordo com a nota ao Portal Multiplix, a secretaria afirma que a fila para fazer o exame é pequena. “Não temos fila para realização de mamografia. É um serviço regulado e, geralmente, a paciente dá entrada e o exame é agendado com poucos dias de antecedência”.

Ainda segundo a secretaria, o mamógrafo do Hospital Municipal Raul Sertã foi enviado para calibragem e, enquanto isso, conforme avaliação dos médicos nas consultas, as pacientes que necessitam do exame são encaminhadas a empresas prestadoras do serviço na cidade.

Importância da Mamografia

De acordo com Comissão Nacional de Mamografia, o exame é o único que, quando realizado de maneira sistemática a partir dos 40, contribui para a redução da mortalidade pelo câncer de mama. O dado é resultado de estudos realizados em mais de 500 mil mulheres, sendo observado uma redução da mortalidade que variou entre 10% a 35% no grupo de mulheres submetidas ao rastreamento em relação às que não fizeram o exame de mamografia.

O ginecologista Lauro Agostini diz que o aumento de câncer de mama no Brasil pode estar relacionado a vários fatores, mas afirma que o principal é o genético. “Pacientes que têm histórico familiar muito forte, com casos ocorridos com mãe, avós, irmãs, têm maior chances de ter. Outros fatores que também influem são a obesidade e a maior expectativa de vida. Vale ressaltar que esse tipo de câncer tem prevalência em países socioeconomicamente desenvolvidos, na Europa, nos EUA e no Japão, por exemplo. Se formos avaliar no Brasil, as regiões que apresentam maior número de câncer de mama são o Sul e o Sudeste, as mais desenvolvidas”, explica.

No Brasil, o rastreamento mamográfico é recomendado pelas sociedades médicas anualmente para as mulheres entre 40 e 75 anos. O autoexame detecta o tumor quando já está em fase adiantada, não tendo estudo que comprove qualquer benefício para a redução da mortalidade.

“A mamografia em alguns países é realizada como exame de rotina apenas após os 50 anos, mas, no Brasil, o protocolo é partir de 40 anos. Porém, a realização do exame não previne a ocorrência do câncer e sim faz um diagnóstico precoce o que é importante para o sucesso do tratamento”, finaliza o ginecologista Lauro Agostini.