Ator de Nova Friburgo transforma episódio de homofobia em peça e estreia 'Hétero Sigilo' no Rio
Dirigido por João Fonseca, de "Cazuza" e "Minha Mãe é uma Peça", o solo de Bernardo Dugin nasce de ataque em missa de sétimo dia e estreia em março
Peça do ator friburguense, Bernardo Dugin, 'Hétero Sigilo', estreia em março, no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro
|
Foto: Divulgação/Nil Caniné
Quase três anos depois de sofrer um ataque homofóbico durante uma missa de sétimo dia, em Nova Friburgo, Região Serrana do Rio, o ator friburguense Bernardo Dugin leva aos palcos uma resposta artística ao episódio que deixou marcas em sua trajetória pessoa.
Na época, o caso foi noticiado pelo Portal Multiplix e teve repercussão nacional.
Agora, arte e vida real se encontram no monólogo "Hétero Sigilo", com idealização, dramaturgia e performance do próprio Dugin.
Siga o canal do Portal Multiplix no WhatsApp
A estreia está prevista para o dia 6 de março, no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro.
O espetáculo tem direção de João Fonseca, conhecido por trabalhos como "Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz" e "Minha Mãe é uma Peça", do ator Paulo Gustavo.
Do episódio à cena
"Hétero Sigilo" surgiu a partir de um ataque homofóbico sofrido por Dugin e seu namorado durante uma missa de sétimo dia, em maio de 2023.
Na ocasião, o ator publicou nas redes sociais um vídeo com um desabafo sobre o ocorrido no momento da homilia.
O demônio está entrando na casa das pessoas de diferentes formas para destruir as famílias na representação da união de pessoas do mesmo sexo, homem com homem, mulher com mulher.
Na época, Dugin se emocionou ao relatar o ocorrido nas redes sociais | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Segundo ele, o padre teria proferido palavras de ódio.
O episódio resultou em um processo judicial que tornou réu o padre que ministrou a missa, por racismo qualificado, em uma ação que discute os limites entre liberdade religiosa, liberdade de expressão e discurso de ódio.
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) também solicitou indenização por danos morais coletivos à causa LGBTQIAPN+, reconhecendo o impacto simbólico e social do caso.
No palco, Dugin amplia a discussão. O monólogo reflete sobre heteronormatividade, violência simbólica e o custo psicológico de viver sob pactos de silêncio.
Vivendo anos sob a máscara de um personagem hétero que ele mesmo criou, Dugin constrói um relato íntimo e potente sobre os pactos que fazemos para caber na sociedade.
A peça expõe como a heteronormatividade ensina a mentir, performar e se aprisionar, e aponta caminhos possíveis de coragem e pertencimento
A narrativa parte da experiência pessoal para abordar mecanismos sociais que, segundo o artista, impõem disfarces e performances como estratégia de sobrevivência.
O espetáculo não é sobre assumir uma orientação sexual. É sobre o que a gente precisa esconder para continuar existindo sem ser punido por isso. A violência não começa no soco; começa no silêncio que a sociedade nos obriga a manter.
O ator ainda disse que transformar a experiência vivida em arte é uma forma de reorganizar o trauma do que viveu em 2023.
Ator friburguense se prepara para peça que estreia em março, no Rio | Foto: Divulgação/Nil Caniné
Levar isso para o palco não é reviver a ferida. É ressignificá-la. A arte me permitiu sair do lugar de alvo e assumir o lugar de autor da narrativa. Quando eu conto essa história com consciência crítica, eu deixo de ser apenas alguém que sofreu algo e passo a ser alguém que propõe reflexão. Isso muda tudo. Hoje, o sentimento é de potência. Não é sobre vingança, é sobre elaboração. É sobre transformar violência em pensamento e dor em diálogo.
E também deixou uma mensagem ao público LGBTQIAPN+.
Muita gente aprende, desde cedo, a negociar quem é para caber no mundo. O espetáculo fala sobre esses pactos silenciosos, inclusive os que nós fazemos com nós mesmos. E o preço emocional disso pode ser alto. Eu gostaria que cada pessoa LGBTQIAPN+ que assistir [à peça] saia do teatro com menos culpa e mais consciência de que não há nada de errado em existir como se é. A norma pode ser rígida, mas a nossa subjetividade não precisa ser. Se o espetáculo conseguir fazer alguém se sentir validado, acolhido ou um pouco mais inteiro, então ele já cumpriu sua função.
Engajamento antes da estreia
Antes de chegar ao teatro, o projeto ganhou forma como iniciativa transmídia. Durante a Parada do Orgulho LGBTQIAPN+, na avenida Paulista, em São Paulo, foi criada a "Caixa do Sigilo", uma instalação em que pessoas relataram histórias reais vividas sob anonimato.
Paralelamente, o perfil @hetero.sigilo24 nas redes sociais passou a satirizar situações cotidianas relacionadas à lógica do "sigilo". O conteúdo alcançou quase 5 milhões de visualizações, consolidando o projeto como fenômeno de engajamento digital antes mesmo da estreia nos palcos.
Trajetória
Bernardo Dugin é ator, dramaturgo e diretor teatral. Atualmente, dirige o Grupo Taca, de Nova Friburgo, coletivo com 50 anos de história no teatro fluminense.
No palco, integrou montagens como "Sujeito a Reboque" e "Godspell – O Musical". Também foi assistente de direção em produções como "As Cadeiras" e "Ópera do Menino Maluquinho".
No cinema, participou dos longas "M8" e "Deixe-me Viver", além de curtas exibidos em festivais nacionais. Na televisão, atuou em produções da TV Globo e da Record TV. É professor de teatro e sócio-fundador da produtora O Delirante.
Com "Hétero Sigilo", o artista transforma um episódio de violência em ponto de partida para reflexão pública, reafirmando o teatro como espaço de debate e elaboração coletiva.
Ficha técnica:
Dramaturgia e performance: Bernardo Dugin
Direção: João Fonseca
Assistente de direção: André Celant
Cenário e figurino: Nello Marrese
Trilha original e direção musical: Federico Puppi
Direção de movimento: Vanessa Garcia
Iluminação: Daniela Sanchez
Identidade visual: Loomi House
Assessoria de imprensa: Catharina Rocha e Paula Catunda
Fotografia: Nil Caniné
Produção: O Delirante Produções
Assistente de produção: Azul Scorzelli
Serviço
Espetáculo: Hétero Sigilo
Temporada: 06 a 29 de março de 2026
Horário: Sextas e sábados às 20h | Domingos às 19h
Local: Teatro Laura Alvim – Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema (RJ)
Duração: 75 minutos | Classificação: 18 anos
Ingressos: R$ 60 (inteira) | R$ 30 (meia)
Vendas online: funarj.eleventickets.com
Instagram: @hetero.sigilo24 e @bernardodugin
Receba as notícias das regiões Serrana e dos Lagos no Rio direto no WhatsApp. Clique aqui e inscreva-se no nosso canal!






