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Friburguenses contam como convivem com os impactos da tragédia de 2011

Há nove anos, Região Serrana foi atingida por catástrofe climática

Por Matheus Oliveira
11/01/20 - 10:00
Friburguenses contam como convivem com os impactos da tragédia de 2011 Tragédia de 2011 deixou quase mil mortos na Região Serrana | Foto: Agência Brasil

Nove anos. Este é o período que neste sábado, dia 11 de janeiro, se completa desde a tragédia climática da Região Serrana que vitimou centenas de pessoas e deixou um grande número de desaparecidos. Mas após tanto tempo, é possível superar os traumas e as perdas geradas pelo desastre climático?

Na tragédia da Região Serrana, ocorrida após um forte temporal entre os dias 11 e 12 de janeiro de 2011, mais de 900 pessoas morreram, sendo 428 apenas em Nova Friburgo. O desastre foi considerado a maior catástrofe climática do país e deixou os municípios da região em estado de calamidade.

Em todo mês de janeiro, a lembrança da tragédia e as chuvas fortes causam medo a boa parte friburguenses. Para lidar com a situação, a psicóloga Izaura Gazen afirma que trabalhar com atitudes preventivas é importante para que as pessoas não sejam surpreendidas.

“Com orientação adequada, as pessoas lidam com a perda de outra forma. As pessoas que não possuem a percepção de risco, a dimensão é outra. Embora, em ambos os casos, essas perdas humanas e materiais, de ruptura da histórias de vida, as perdas são graves e de difícil elaboração”, declara.

A psicóloga participou da Rede de cuidados RJ, que nasceu de um projeto oriundo do Seminário Nacional de Psicologia de Emergências e Desastres, ocorrido em 2006, em Brasília. Após a tragédia, ela afirma que trabalhou com mais de 50 comunidades rurais.

Ela destaca ainda que o trabalho da Rede de Cuidados ajuda a população a lidar com a perda de uma maneira diferente.

“Uma coisa é a pessoa ter consciência do risco, se preparar e saber que fez todo o possível. Outra, é perder a família enquanto está dormindo”, compara.

Daniel viu no sofrimento da população e na fé uma forma de superar os traumasDaniel viu no sofrimento da população e na fé uma forma de superar os traumas | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Superação através da fé

O autônomo friburguense Daniel Marques viveu uma noite de terror naquele 11 de janeiro. Viu mais de 40 pessoas morrerem na sua rua, no Prado, com casas invadidas pela água e pela lama. Além disso, o jovem perdeu a mãe na ocasião.

Ele revela que o tamanho do desastre foi o primeiro fator que lhe fez superar o trauma e seguir em frente.

“No dia da tragédia eu tive um grande baque, mas dois fatores me ajudaram a superar tudo. Acho que em primeiro lugar foi justamente o tamanho da tragédia. Na minha rua morreram cerca de 40 pessoas, contando com a minha mãe. Muitas pessoas que eu conhecia desde a infância”, afirma, antes de completar.

“Além disso, colegas e conhecidos que moravam em outras localidades também se foram. Lembro que quando fui velar minha mãe tinha que ser muito rápido, pois tinham muitos corpos para enterrar no cemitério do bairro Cordoeira, inclusive de crianças”, relembra.

Ele conta que o segundo fator que lhe amparou no momento da perda da mãe foi sua fé em Deus.

“Um segundo fator que me ajudou a superar tudo foi através de Deus e da esperança na ressurreição. Vi que nós não somos nada aqui e que nossa fragilidade é muito grande. Todo o consolo de pensar que há algo depois disso que vivemos aqui me ajuda até hoje a superar os traumas da vida. Com certeza, se eu não tivesse fé, a vida não teria lógica e nem sentido”, declara.

Após perder a mãe, Maiana procurou ajuda psicológica para superar a tragédiaApós perder a mãe, Maiana procurou ajuda psicológica para superar a tragédia | Foto: Reprodução/Redes Sociais

Ajuda psicológica auxilia moradora friburguense

Outra friburguense atingida pela tragédia foi Maiana Lopes. Moradora do bairro Vila Amélia, ela conta que a força de uma tromba d’água, vinda de um clube do bairro, arrastou árvores e invadiu sua casa.

Ela acabou levada pela enxurrada e acabou tentando salvar a mãe, também arrastada pela correnteza.

“Eu estava com água até o peito e fui levada. Tentei buscar minha mãe, vi o local onde ela estava presa, mas não consegui chegar até ela. Ela acabou com a cabeça presa no sofá e o corpo para fora. Assim, não resistiu naquele dia”, revela.

Ela conta que buscou ajuda profissional para conseguir falar sobre a situação.

“O que me ajudou a falar sobre isso foi buscar ajuda profissional de um psicólogo. E no primeiro ano, após a tragédia, eu tive que passar a resolver muita coisa, em relação a casa, a certidão de óbito da minha mãe veio com nome errado e eu, ainda estava no último ano da faculdade. Foi um período tumultuado e eu não parei para viver o luto e ter noção do que estava acontecendo”, conta.

Ela relembra que em 2012 ela começou a ter medo, resultando em uma depressão que afetava seu rendimento profissional.

“No ano seguinte, quando começou a ter muita chuva, passei a entrar em depressão, não conseguia ir trabalhar e estava prestes a ser demitida. A ajuda psicológica me ajudou muito. Nunca superamos 100%, ainda mais perdendo a mãe. Mas consegui lidar melhor com a perda”, afirma.

Por fim, a psicóloga Izaura Gazen detalha como transformar a dor em força.

“É possível, a partir desta experiência, criar uma consciência de solidariedade entre as pessoas e incentivá-las a cuidar do mútuo. E assim, quando é oferecido um cuidado humano, nesta situação de desastre, as pessoas vivem uma experiência que forja novos vínculos e mostra que não só elas, mas outros indivíduos, também perderam muito. Assim, se cria motivação em seguir a vida e não se entregar ao luto e a dor”, destaca.


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