Nova Friburgo: acolhimento e exclusão

(a lição das montanhas)

Por Ricardo Lengruber
13/05/19 - 09:43

As atividades sobre os 201 anos de Nova Friburgo têm me feito pensar também em temas da contemporaneidade. Refugiados e intolerância, por exemplo.

Um dos principais problemas, em termos populacionais e a nível global, é a questão dos refugiados. O conceito foi regulado pela Organização das Nações Unidas em 1954. Segundo a ONU, para ser considerada refugiada, a pessoa precisa declarar que se sente perseguida pelo Estado de sua nacionalidade por razões de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas; que se ausentou de seu país em virtude desses termos ou que não consegue a proteção do poder público pelas mesmas razões.

O vulcão Tambora fica na ilha de Sumbawa, na Indonésia. Em abril de 1815 ele entrou em erupção e lançou material a 40 km de altura. A explosão escureceu o céu por 3 dias, atingindo um raio de centenas de quilômetros. Pesquisas dão conta que uma nuvem gigante de partículas minúsculas se espalhou pelo planeta, afetando o clima em todo mundo, bloqueando a luz do sol e produzindo três anos de esfriamento do planeta. Há quem afirme que os efeitos foram mais sentidos nos Alpes Europeus. Em Saint Gallen, na Suíça, o preço dos grãos mais do que quadriplicou entre 1815 e 1817, fazendo com que a população faminta saísse em busca de alimento. A taxa de mortalidade disparou, em decorrência da fome e de doenças. Os dias frios do verão destruíram a colheita de cereais por três anos seguidos. 1816 ficou conhecido como “O Ano sem Verão”.

O avô do meu avô chegou ao Brasil como refugiado. Movidos pelos ventos da necessidade, no século XIX, atravessou o oceano em condições degradantes - fugindo da fome, do desemprego e da miséria em que estava mergulhada a Suíça (a Europa em geral).

Por aqui, parte dos seus descendentes - e de outras tantas famílias que na região se fixaram - prosperaram. Uns inclusive - de janelas fechadas para os ventos abolicionistas - sob a marca imoral da escravização de outros seres humanos.

Seu neto, meu avô, também foi um retirante. Um homem alado pela coragem das ventanias, deixou sua Duas Barras em busca de oportunidades melhores para criar seus filhos em Friburgo.

A história é assim mesmo: dinâmica, tensa, mutante. A história é um sopro permanente - nunca constante. Não há verdades a serem conservadas. Elas mesmas se revolucionam. São inquietas e migrantes. Detestam a clausura.

Na celebração dos 201 anos, é preciso também rememorar as ambiguidades de toda essa história. E revisitar a vocação dessa nossa terra para o acolhimento, para o diferente. Subir de novo nos cumes de nossas montanhas onde o vento nos lembra da instabilidade que é a vida. Desenclusurar.

Isso, infelizmente, parece ter se perdido com o tempo. Só há espaço hoje para uma narrativa. Desapareceu o espaço do trânsito, do diálogo, da pluralidade de ideias e do contraditório. Não há ventos novos no Vale do Morro Queimado.

Não dá para esquecer que somos todos errantes; refugiados, em algum sentido. Não é possível ficar insistindo na conservação de um refúgio seguro e paradisíaco que jamais existiu. Portos seguros não vencem oceanos.

A memória do avô do meu avô é que me impele, dia a dia, a me retirar de todo lugar que se pretende inabalável. Me instiga a subir montanhas e atravessar oceanos. Morros e mares que moram, inclusive, dentro de mim mesmo.

Nem as montanhas mais imponentes - símbolos dessa terra de oportunidades - ficarão de pé para sempre. E será o mesmo vento de sempre quem as tornará pó.

(Acesse o vídeo em https://youtu.be/kEeTPWPujPQ)



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