Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa
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"O que você é, é o que você foi. O que você será, é o que você faz agora." (Buda)
"Uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa". Tenho quase certeza de que já escrevi uma crônica com esse título. Na dúvida, eu posso trocar: a gente altera a ordem dos fatores, e fica tudo muitíssimo bem. Ora, não foi Giuseppe Peano quem nos garantiu que isso não altera o resultado? Falou, está falado. E, se é assim na matemática, também deve ser na literatura, no cinema e em todo o resto. Quem sabe?
Vai ver até comecei esta crônica pelo fim. Não tem problema. Peano disse, ó, rapá: isso não altera o resultado!
Veja bem, hoje em dia, todo mundo opina por aí, sem ser especialista em coisa alguma, mas cheio de convicção. Não era o caso de Giuseppe Peano: o sujeito era matemático, filósofo, professor universitário, linguista e ainda marido da senhora Dona Carola Crosio — não necessariamente nessa mesma ordem. Posto isso, convenhamos: ele tinha autoridade para falar.
Então veja você, terráqueo. Ao longo da existência, somos múltiplos e diversos "eus". Complicado de entender? Que nada, cara pálida, é facinho. Somos filhos, estudantes, profissionais, pais, administradores da casa e das finanças, colegas de trabalho. Somos muitos — e não obrigatoriamente bons em tudo. Giuseppe, por exemplo: seu legado na matemática atravessou eras e gerações, mas terá sido um grande filósofo? Não sei dizer; desconheço essa faceta. E como professor? Também não fui seu aluno. O fato é que precisamos saber separar as instâncias de uma pessoa e evitar julgamentos generalizados e superficiais.
O que isso tem a ver com o nosso textículo de hoje, meu senhor? É que, no dia de São Jorge, próximo, estreia nos cinemas "Michael", a cinebiografia de ninguém menos que Michael Jackson. O filme retrata a vida e o legado do cantor, desde a descoberta de seu talento extraordinário como líder do Jackson Five até a carreira solo e o impacto cultural de sua visão artística. Nem é preciso lembrar que sua trajetória esteve cercada de polêmicas de toda ordem, que não paga a pena enumerar. Pois bem: tudo isso de modo algum apaga o talento do sujeito; o cara era bom, admitamos. O senhor pode até não simpatizar com algum Michael, mas o Michael artista era, sem dúvida, espetacular.
E quem pensa que isso ocorre apenas com matemáticos, artistas, influencers, políticos, jogadores de futebol, e humoristas, está muito, muito enganado. Nós, aqui em nossa vida simples e corrida de sempre, também somos muitos, quer queiramos ou não.
Virtuoso leitor: o horizonte moral de todo homem deveria ser buscar aperfeiçoar-se em todas as dimensões, contudo, não há ser humano na face da Terra ou em qualquer lugar na vastidão do Universo capaz de atingir excelência em tudo, o tempo inteiro. E está tudo bem, cara pálida. Precisamos aprender a julgar menos os outros (e a nós mesmos) baseados em falsas premissas. Porque, afinal de contas, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa.
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