Má Cicatrização! Quando Acontece? Cirurgia Plástica Pode Dar Queloide?

Por Glauco Rocha
19/08/19 - 11:10

A cicatrização é um processo complexo que resulta na formação de um novo tecido para o reparo de uma ferida resultante de uma cirurgia.

Uma evolução natural das fases da cicatrização em um indivíduo normal geralmente produz uma cicatriz final de bom aspecto estético. Qualquer interferência nesse processo pode levar à formação de cicatrizes de má qualidade, alargadas e pigmentadas.

Dependendo da gravidade desta interferência, pode ocorrer a formação patológica desta cicatrização, traduzindo-se em cicatrizes hipertróficas e a tão temida e assustadora cicatriz queloidiana. O papiro descoberto por Smith, que são escritos egípcios datados de 1700 antes de Cristo, já fazia menção à formação anormal de cicatrizes.

As cicatrizes queloidianas causam tão má impressão a ponto do 1º queloide, descrito em 1806, por Alibert, tê-lo deixado tão impressionado que, à época, ele os denominou como LES CANCROIDES, ou seja, lesões semelhantes ao câncer.

O termo tem origem no grego, Khele (garra, pinça) e Oiedes (semelhante a).

As cicatrizes hipertróficas e a pior versão das cicatrizes patológicas, que são os queloides, surgem a partir da proliferação dos fibroblastos com consequente acúmulo da matriz extracelular, especialmente pela excessiva formação de colágeno. Ou seja, numa tradução livre e simplificada, seria uma cicatrização cujos processos de cicatrização não cessam e ultrapassam os limites da ferida que a originou.

A cicatriz hipertrófica consiste em cicatrizes elevadas, tensas e restritas às margens da lesão original. Podem regredir espontaneamente após o trauma inicial.

Já a cicatriz queloidiana é uma lesão elevada, brilhante, pruriginosa (coceira) e muitas vezes dolorosa, e que sempre ultrapassa os limites da ferida original, o que quer dizer que invade a pele normal adjacente. O queloide é tão temido que até mesmo médicos de outras especialidades cirúrgicas não conseguem identificá-lo, confundindo cicatrizes de má qualidade , alargadas ou com retração fibrótica, com cicatrização queloidiana.

O cirurgião plástico é quem tem melhores condições de diagnosticar o queloide, por ser treinado em sua formação, a executar os fechamentos das feridas operatórias de modo mais sofisticado, cuidadoso e com manuseio adequado dos tecidos, exatamente com o objetivo de evitar uma má cicatrização, produzindo uma síntese fisiológica das feridas.

Para tanto, conhece profundamente todas as fases que envolvem os processos de cicatrização do corpo humano.

Uma curiosidade a respeito do queloide é que ele é um “privilégio” dos seres humanos, não aparecendo em animais; mas ocorre com mais frequência em determinados grupos étnicos, sendo preponderante em afrodescendentes, asiáticos e indivíduos de pele escura em geral, nesta ordem.

As regiões corporais mais acometidas são a pré-esternal (tórax anterior), dorso, região cervical (pescoço) posterior, ombros e orelhas.

Por outro lado, quase não há relatos em pálpebras, pênis, escroto, região frontal, palmar e plantar.

Cicatriz queloidiana é uma patologia de difícil tratamento, sendo quase impossível sua eliminação.

Podemos dizer que o queloide pode ser melhorado, mas não totalmente curado.

Muito em função desta constatação, existem várias formas de tratamento, sendo certo que quanto mais precoce for iniciado, maiores as chances de êxito.

Portanto, assim como tudo em medicina, prevenir cicatrizes hipertróficas e principalmente queloide é muito mais eficiente do que tratá-los.   O emprego da técnica cirúrgica e sutura das feridas de modo adequado a evitar manipulação excessiva e traumática dos tecidos, remoção de corpos estranhos, sutura por planos, diminuindo a tensão na cicatriz, prevenção de hematoma e infecções são medidas que contribuem para obtenção de cicatrizes de boa qualidade.

Estas medidas fazem parte da prática diária do cirurgião plástico, não podendo também esquecer que seu instrumental cirúrgico é mais sofisticado, delicado e específico, colaborando na efetividade destas técnicas de sutura.

Quanto ao tratamento, voltamos a repetir: quanto mais cedo iniciado, maiores são as chances de êxito, de preferência assim que for diagnosticada a patologia cicatricial.

Há o tratamento conservador, que é a aplicação de corticoides, usando-se geralmente a trianciloma, e que pode ser associado à compressão das feridas com fitas de silicone, objetivando-se a diminuição de produção de fibroblastos (as aplicações são feitas dentro da cicatriz).

A terapia compressiva inclui não só as fitas de silicone, mas também malhas compressivas.

E, por fim, o tratamento cirúrgico associado ao uso da betaterapia (uma variação dos Raio X), que é o tratamento com maiores índices de melhora do queloide na atualidade.



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