Cuidado para não cair da bicicleta
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"Toda a sabedoria consiste em desconfiar dos nossos sentidos e das nossas paixões." (Giuseppe Parini)
Eu fico aqui pensando sobre o que se passa na cabeça de engenheiros e designers de automóveis. É bem verdade que hoje os carros são muito mais seguros, com linhas futuristas e propostas arrojadas, mas parem um segundo o que estão fazendo para refletir comigo: qual é a lógica de uma seta ou alerta ser tão minúsculo nos veículos contemporâneos? Para quem já passou dos quarenta, é quase impossível enxergar quando o colega resolve (quando resolve) indicar para onde vai. E se você é do tipo que usa o celular ao volante, aí então é que não vai perceber mesmo.
Já sei o que você pensou, leitor saudosista! O sujeito (e a empresa) que projeta um carro desses, cheio de firulas extravagantes ou pouco funcionais (inclusive aquele pneu de bicicleta que chamam de estepe), está pouco se lixando se isso vai funcionar para um cidadão que trafega pelas brenhas do Morro Queimado. O design inovador precisa apenas seduzir consumidores, e nada além disso.
Ah! Lembro-me bem de quando eu era garoto e surgiu a tal da garrafa PET. A mídia, os programas de auditório e as campanhas publicitárias anunciavam em alto e bom som que aquilo era o futuro. Era uma bandeira ambiental. Diziam que eram práticas, reutilizáveis, recicláveis. E hoje todo mundo sabe a praga que elas se tornaram. Agora estamos em processo de retorno ao vidro — mas, nesse ínterim, alguém lucrou. E muito.
É nesse ponto que o senhor deve ter pensado: "Ora, mas a culpa não é da garrafa, mas do cidadão que não estava preparado para usá-la". Será mesmo? Há controvérsias. É sempre muito fácil inculcar na população a responsabilidade por suas próprias mazelas. No entanto, é bem provável que a maioria dos efeitos colaterais das pseudoinovações tecnológicas ou comportamentais tenha sido calculada, com margem mínima de erro, e deliberadamente ignorada, já que só seria percebida décadas depois.
Senão, vejamos. O açúcar virou o vilão da dieta dos mortais, dando lugar ao famigerado adoçante, que hoje é associado a doenças como Alzheimer e demência. O que é que tem, né? Tome-lhe adoçante no povo. E, falando em açúcar, após a crise do petróleo de 1973, o governo brasileiro, numa iniciativa isolada no cenário internacional, criou o Programa Nacional do Álcool, substituindo a gasolina pelo etanol nos carros de pequeno porte; curiosamente no mesmo período em que o preço do açúcar estava em baixa no mercado mundial. Ora, pouco importa a eficiência dos motores a álcool. Alguém ganhou (e ainda ganha) muito dinheiro com essa política, vendida como benéfica à população. Hoje, o Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol combustível e também o segundo maior exportador, veja só.
O que quero dizer, se é que quero dizer alguma coisa, é: cuidado para não cair da bicicleta, cara pálida. Nem toda novidade comportamental, ideológica ou tecnológica, surge para o bem de todos e felicidade geral da nação. Sede crítico, sempre. Adoçantes, canetas emagrecedoras, carros elétricos, inteligências artificiais, leds, margarinas, mensagens de áudio, redes sociais, e smartphones. Tudo com parcimônia, terráqueo. Prudência e dinheiro no bolso. Canja de galinha não faz mal a ninguém.
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