Poemas da recordação e outros movimentos, uma resenha do livro de Conceição Evaristo

Por Rachel Rabello
24/09/19 - 10:00

Já escrevi algumas vezes aqui sobre a Conceição Evaristo, portanto pensei que era chegada a hora de falar um pouco mais sobre o seu trabalho. Falarei de seu livro Poemas da recordação e outros movimentos (editora Malê, 2017).

Evaristo é escritora e doutora em Literatura Comparada pela UFF. Sua escrita é uma “escrevivência” – ela explica que, a seu ver, toda escrita é marcada pela vida, pelas condições sociais de seu autor. Sendo assim, em seu caso, sua escrita é marcada ou é a própria marca de sua vivência como mulher negra na sociedade brasileira.

Em Poemas da recordação e outros movimentos, Evaristo traz em sua escrita o eco de vozes silenciadas (“o silêncio mordido/ rebela e revela/ nossos ais/ e são tantos os gritos”), o olhar daquelas que vivem as dores de ser negra e pobre no Brasil. A bala perdida encontrada no peito do filho (“e pedimos/ que as balas perdidas/ percam o nosso rumo/ e não façam do corpo nosso, / os nossos filhos, o alvo”), o estupro da menina (que “depois, sempre dilacerada, / (...) expulsou de si/ uma boneca ensanguentada/ que afundou num banheiro público qualquer”), a fome (que “brinca, escovando os dentes dos famintos”), o amor, a cura, a fé e a magia (“fabricamos o calor de um só dia, esquecidos/ de que como os deuses, / também podemos milagrar a vida”).

Recordar é preciso, diz o poema que abre o livro. Sua escrita traz à tona uma outra narrativa histórica, uma outra memória: a memória dos quilombos, em vez da memória da Princesa Isabel, a memória de um protagonismo, de uma resistência, em vez da memória de uma impotência. E, dentro dessa nova perspectiva literária, ela dialoga com a poesia de Drummond (No meio do caminho: deslizantes águas – “Da advertência de Carlos, / faço moucos meus ouvidos”), Nei Lopes (Cremos), Adelia Prado (Só de sol a minha casa), com a prosa de Clarice Lispector e de Carolina de Jesus (“No meio da noite/ Carolina corta a hora da estrela. / Nos laços de sua família um nó/ - a fome”), criando poemas a partir da intertextualidade. Em relação ao aspecto formal, sua poesia é como matéria-viva, podemos tocar as palavras como quem toca um corpo, sentir seus aromas, sabores e texturas, como nos versos do último poema Da calma e do silêncio: “Quando eu morder/ a palavra, /por favor, / não me apressem/ quero mascar, / rasgar entre os dentes, / a pele, os ossos, o tutano/ do verbo/ para assim versejar/ o âmago das coisas”.

Sua poesia é uma espécie de oração, ritual transmuta(dor).

Que ninguém te apresse, Conceição, na sua delicada tarefa de conceber essa nova literatura, esse novo olhar, essa nova vida.



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