Maio parte 2

Por Rachel Rabello
25/03/19 - 09:35

De alguma maneira que não sei explicar, consigo fazer o meu trabalho. Ligo para fornecedores, discuto, reclamo, imprimo contratos, entrego ao Luis, ele assina, eu peço pro Rodrigo levar, ele leva. Confirmo a entrega. Tudo certo.

Fim de expediente. Atravesso a Presidente Vargas e pego o 432 pra casa. É quinta-feira e a Ronald de Carvalho exala os efeitos da feira.

Mas ao chegar à porta, percebo que não estou com a chave. Vasculho a bolsa, cheia de outras pequenas bolsas, caderno, estojo, maquiagem, papéis de bala - tudo, menos a chave. Irritada, jogo tudo no chão e me sento: com os objetos dispostos, posso ver melhor, mas a luz do corredor apaga a toda hora, então faço movimentos para que o sensor capte a minha presença e a luz se acenda novamente. É exaustivo. A chave não aparece. Desço até a portaria e pergunto ao porteiro onde pode haver um chaveiro mais próximo e ele me diz:

– Não posso deixar que a senhora entre.

– Como não?

– A senhora não mora aqui.

– Claro que moro! O senhor é que é novo aqui, me desculpe, não fomos apresentados. Eu sou Rachel, a moradora do 501.

– A moradora do 501 é a dona Maria.

– Mas eu sou a Maria! Quer dizer, eu não sou, mas de algum modo eu sou...escuta, deixa eu explicar...

– Se a senhora não se retirar agora eu vou ter que chamar a polícia.

Diante dessa afirmação, saio atordoada do prédio em que moro há cinco anos. Penso que os vizinhos podem me reconhecer, os garçons do restaurante árabe, do boteco ao lado, da churrascaria... Mas ninguém parece me ver. Ainda confusa, atravesso a Praça do Lido. Preciso telefonar para alguém.



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