Maio parte 1

Por Rachel Rabello
11/03/19 - 09:45

Era uma tarde de maio, dessas em que o sol é delicado. O relógio marca nove e meia. Estou atrasada. Caminho pelas ruas do Centro, sonâmbula.

Os homens de terno não parecem me notar. Eu sei que devo entrar em algum daqueles prédios da Rio Branco. Não me lembro qual. Decido entrar no primeiro à esquerda. Há uma recepção e roletas de cada lado. A recepcionista tem uma voz melosa e cabelos mal pintados. Sinto raiva dela, sem nenhuma razão, mas procuro disfarçar. Ela me pede a identidade, eu digo que não sei o número de cor. Ela me diz “esqueceu o número, Maria?” Não sei porque me chama assim. Esse não é o meu nome.

Entro no elevador e pessoas que eu não conheço me cumprimentam. Eu respondo, por educação. O operador, depois de me sorrir, aperta o botão do 11º andar. Era um senhor com seus quase sessenta anos, calvo, óculos pesados e aquela tristeza alegre no rosto.

“Gente humilde, que vontade de chorar”, penso.

Ao adentrar o andar, esbarro num homem magro e que cheira a cigarros. Seus olhos estão cansados, a barba por fazer. Os óculos sujos parecem impedi-lo de me ver. Ele passa, atordoado, para o lado oposto ao da minha sala, com umas folhas amareladas na mão. A minha sala fica no lado direito do corredor e eu sei que é minha porque tem o meu nome na porta: Maria Diniz.

Mas esse não é o meu nome.



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