Exercício nº 3: o desastre

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Por Rachel Rabello
01/07/19 - 10:01

Aprendi a ficar num quadrado só, desde pequena. Aprendi a reduzir-me aos limites do meu corpo, às vezes me espremendo ao mínimo de mim, para ocupar o menor espaço possível daquele que me era disponível. Encolhi-me. Reduzi meus movimentos para esconder o quanto pudesse do meu desajeito no mundo. Meus braços eram tentáculos que derrubavam tudo, minhas pernas tropeçavam em si mesmas. Eu não sabia andar sem que meu corpo desforme atropelasse o que quer que estivesse à minha volta.

Invejava as bailarinas, tão precisas em seus corpos esguios, tão suaves e leves. Eu não tinha gestos, mas atropelamentos. Então comecei a ter medo de tocar as coisas, as pessoas. Tudo o que eu tocava desmoronava. O desastre.

Aos poucos isso foi se propagando para os outros órgãos. Só conseguia sentir aromas que estivessem muito próximos. A audição se apurou, ouvia os mínimos movimentos, o cair de um lenço, um piscar de olhos. E o paladar era mais acurado que do melhor sommelier. A língua se enroscava dentro da boca. Minha voz foi se perdendo. Os médicos diziam que era fraqueza no diafragma. Me mandavam fazer exercícios de respiração, yoga, acupuntura, fisioterapia, fonoaudióloga. No começo me obrigavam a ir. Mas eu ficava sempre tão quieta que era como se não fosse – então deixaram de notar minha presença e pude me ausentar.


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