Exercício nº 2: A órfã

Por Rachel Rabello
04/06/19 - 10:05

Ando por entre as ruas sozinha. Passa um bêbado e eu me escondo na farmácia. Ele pode ser tarado. Atravesso no sinal, esperando os carros pararem. No banco, me dizem que eu preciso reconhecer firma e autenticar. No cartório, me dizem que eu não tenho firma. Eu digo que não tenho dinheiro.

O bêbado me seguiu. Estou no ponto de ônibus e ele pede meu celular. Eu digo que não dou. Ele parte pra cima de mim, crava as unhas sujas nos meus braços. Eu tenho nojo, mas não grito.

Com a roupa rasgada, a pele sangrando, me encaminho pra delegacia. Lá o delegado me diz que eu posso dar queixa, mas não vai dar em nada. Não tenho o nome do sujeito, não tenho nada. Se eu quiser mesmo dar queixa, preciso ir ao IML fazer exame de corpo delito, senão a justiça pode achar que eu movimentei a máquina à toa. Como se a máquina se movesse.

Chego ao IML e espero. Entra um cara baleado, aos gritos, sangue nas mãos e nos olhos. Quem me atende é uma médica. Ela examina meu corpo e diz: “é só isso?” Eu digo que sim, é só isso.

Em casa, no trabalho, as pessoas me perguntam: “por que você simplesmente não deu o celular para ele?”

A injustiça só comove os gregos.

É chegado o dia da audiência. Parece que acharam o bêbado, mas ele morava no Leblon. Ele nega tudo e diz que sou maluca, que eu que o ataquei e tentei assalta-lo. Estou sozinha na sala e tenho que escutar tudo isso enquanto o promotor público tenta colocar panos quentes. O juiz me trata com condescendência. “Tem certeza de que foi isso o que aconteceu?”, ele pergunta.

O promotor me pergunta se eu desejo mesmo continuar. No fim das contas, o cara me processou por calúnia e difamação. Se eu largasse o processo, ele largaria também.

Na minha cabeça só uma pergunta latejava: onde está meu pai.


O Portal Multiplix não endossa, aprova ou reprova as opiniões e posições expressadas nas colunas. Os textos publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores independentes.