Ele não

Por Rachel Rabello
15/10/18 - 11:02

No começo, tive reservas em relação ao movimento #elenão, motivo pelo qual acabei não comparecendo à manifestação nacional ocorrida no sábado anterior ao primeiro turno das eleições. O que me preocupava era notar que, ao se colocar como a rejeição de um único candidato, ao se colocar contra, sob a lógica do não, em vez de se engajar a favor de um outro candidato, o movimento gerava um vazio, que logo poderia ser preenchido por interesses alheios (partidários ou não), como aconteceu nas manifestações de 2013.

Naquele ano, as manifestações surgiram por um motivo – pela redução das tarifas de passagens de ônibus –, mas, diante da represália da polícia, ordenada pelos governos, acabaram inflamando grande parte da população, que decidiu se manifestar pelo simples direito de se manifestar, o que acabou gerando um movimento popular apartidário, cujo lema logo parecia ser simplesmente “corrupção não”. Tal lema rapidamente foi apropriado por partidos e pela mídia que, associando a corrupção somente aos governos petistas, geraram um sentimento antipetista, um inimigo comum: o PT. Vejam bem, não omito aqui que havia sim uma certa insatisfação, inclusive da esquerda, com o governo Dilma no que diz respeito às alianças com PMDB e empresários. Entretanto, as manifestações que se disseram apartidárias acabaram por contribuir para um golpe de Estado, baseado num grande “acordo nacional”, que incluía, por exemplo, divulgar inicialmente apenas os petistas investigados pela Operação Lava Jato (os nomes de membros de outros partidos seriam divulgados somente após o impeachment). As pessoas foram manipuladas, massa de manobra a serviço dos interesses daqueles que simplesmente queriam tirar o PT do poder. Ainda assim, Dilma foi eleita em 2014. Pois bem, a partir daí o golpe foi orquestrado e as bases que o fundamentavam consistiam em agravar e muito o sentimento de ódio ao PT. Essa atmosfera polarizada deu voz a um parlamentar pouco conhecido que se destacou por sua veemente oposição ao partido e a “tudo o que está aí” (diminuindo e relativizando o fato de que ele mesmo fazia parte de “tudo o que está aí” há quase 30 anos). O nome desse parlamentar é – adivinhem – Jair Bolsonaro.

O meu receio em relação ao movimento #elenão era justamente o da história se repetir, pois se colocava ainda como um polo oposto da polarização e sem nomear um partido, sem se colocar a favor de nenhum candidato, apenas contra. Entretanto, conversando com amigas adeptas do movimento, compreendi algo que era até meio óbvio: o movimento #elenao não era apartidário, pois não se limitava a rejeitar Bolsonaro. Se a afirmação é “ele não”, logo, subentende-se que “qualquer outro sim”. Portanto, o movimento se definia como suprapartidário, ou seja, colocava-se para além de um ou de nenhum partido, recebendo de bom grado a participação de militantes de outros partidos que apresentassem as propostas de seus candidatos. Para não eleger Bolsonaro é preciso eleger alguém, portanto, anular o voto não é uma opção para os adeptos do movimento.

Mas ainda havia algo que me inquietava. É que a união de pessoas em nome de uma rejeição também me parecia perigosa, pois repetiria ainda a lógica do não e reproduziria a polarização sob a forma de um inimigo comum. Parecia-me mais efetivo, eu pensava, manifestarmo-nos todos em favor de nossos candidatos, engajarmo-nos naquilo que acreditamos. Mas a resposta a essa inquietaçãome veio a partir de uma declaração de Ciro Gomes sobre as manifestações, em que afirmava que, ao dizer “ele não”, “todo mundo estava dizendo que Bolsonaro virou uma referência pro debate nacional. Eu estou tentando mostrar que esse é um grosseiro equívoco e que está convidando o país pra bailar na beira do abismo”. Sim, ir às ruas para dizer “ele não” colocaria, de certa forma, Bolsonaro como referência para o debate e isso poderia ser um equívoco se pensássemos a curto prazo, apenas nessas eleições. Mas, a longo prazo, se isso servir para o despertar de uma consciência política (e humana) coletiva, já valeu a pena. Era isso o que o #elenão estava proporcionando às pessoas: o debate, a reflexão e o diálogo coletivos em busca da consciência política. Ou seja, o movimento #elenão é um movimento pedagógico. Não se limita somente ao contexto de uma eleição específica, mas também não se afasta dele.

Isso acontece porque o que está em jogo nessas eleições é muito sério e específico: é a própria democracia. Bolsonaro representa e propaga a intolerância e o faz sob a forma polarizada do “nós contra eles” – eles sendo qualquer outro, qualquer diferença; eles sendo nós, mulheres, negros, homossexuais, transexuais, comunistas, defensores dos direitos humanos, em suma, todos que pensam diferente dele. Ciro expressou um temor real: que o antibolsonarismo possa gerar exatamente o seu oposto e convidar “o país a bailar na beira do abismo” que é uma ditadura, mas agora já não temos outra saída. É impossível negociar diplomaticamente quando estamos na zona de guerra. E é onde estamos. Agora ou a gente se posiciona de um lado ou de outro, não existe neutralidade. O movimento #elenão não iniciou a polarização, mas, dentro de um país já polarizado desde 2013 e sob o ataque de um grande número de eleitores de Bolsonaro, ou seja, dentro de uma guerra já instaurada, reagiu da única maneira possível: entrando nela, declarando-se contra quem se colocou contra nós, como nosso inimigo. Não fomos nós que dissemos “Bolsonaro é o inimigo”, foi ele que nos definiu assim. Tornamo-nos alvo de tudo o que deve ser combatido, símbolo de todo mal. Nossa única alternativa foi a defesa. Eu concordo que isso é ainda reproduzir a polarização, mas não tivemos escolha. É lutar ou morrer.

Se você, leitor, tem tanta repulsa pelo PT a ponto de considerar votar no Bolsonaro, se você pensa que ele individualmente não é capaz de instaurar um regime fascista, lembre-se de que Hitler também era só um candidato. Se você pensa que as palavras desse candidato são apenas palavras, gafes de um sujeito “sem noção”, lembre-se de que as palavras são“nossa fonte inesgotável de magia, capazes de ferir e curar, na mesma proporção" (J.K. Rowling). As palavras têm poder, criam novas realidades. As palavras de Bolsonaro propagam intolerância e violência e já criaram uma realidade tenebrosa. Essa semana mataram Moa do Catendê, mestre de capoeira, por se posicionar a favor de Haddad. No começo do mês passado, esfaquearam Bolsonaro. As pessoas cometem atos pavorosos quando se sentem ameaçadas ou quando são encorajadas a dar vazão a seus piores sentimentos: em resumo, quando vivem sem amor. Bolsonaro é no mínimo leviano se pensa que suas palavras não vão criar uma realidade terrível. Não sejamos levianos. O antipetismo não pode ser maior que a defesa do amor. Eleger este candidato é contribuir para a soberania do ódio, propagada por seu discurso. Não se engane, esta soberania não se restringe só a negros, homossexuais, trans, mulheres... O ódio é língua de fogo: alastra-se rapidamente e sem piedade – ninguém sai ileso. A maior prova disso é que nem mesmo Bolsonaro escapou, apunhalado pelo ódio que ele mesmo propagou.

Não, não subestimemos o poder das palavras: ele não. Ele não. Ele não. Assim seja e assim será.



O Portal Multiplix não endossa, aprova ou reprova as opiniões e posições expressadas nas colunas. Os textos publicados são de exclusiva responsabilidade de seus autores independentes.