Como (re)aprendi a viver com quem não sabia viver ou o mergulho na mulher que mergulhou no coração do mundo

Por Rachel Rabello
17/06/19 - 10:05

Sabina Berman, escritora mexicana, nascida em 1956, é autora de contos, crônicas e peças de teatro, além de ser cineasta e apresentadora de televisão. Sua obra foi premiada com o Prêmio de Liberatur, na Feira Internacional de Frankfurt, em 2013, além de diversos outros prêmios, como o Prêmio Nacional de Dramaturgia e o Prêmio Ariel. Atualmente, é colunista do jornal El Universal e da revista Proceso e apresenta o programa Berman: otras historias, pelo canal ADN40.

A mulher que mergulhou no coração do mundo (Objetiva, 2012) é seu primeiro livro publicado no Brasil e foi traduzido para 11 idiomas.

O romance é narrado por Karen, que sofreu abusos de sua mãe e até a pré-adolescência não sabia falar, ler ou escrever. Sua mãe era herdeira da Atuns Consuelo, S.A., empresa pesqueira de Mazatlán. Após seu falecimento, a irmã Isabelle assume a empresa e também a educação da sobrinha.

A Atuns Consuelo, S.A. estava à beira da falência: os “Estados Unidos estavam fechando suas fronteiras para o atum mexicano, porque um grupo de pessoas chamado Mares Limpos assim exigia” (pp. 38-39). A Mares Limpos e o governo americano argumentavam que os atuns mexicanos morriam de maneira cruel e ainda levavam golfinhos no processo. Assim, deixaram de comprar seu atum e sentiram-se no direito de pescar em mares mexicanos. Com isso, o governo do México apreendeu cinco navios estadunidenses, o que provocou o embargo como resposta.

O aprendizado de Karen sobre o mundo e sobre a pesca de atuns se dá paralelamente ao aprendizado da própria tia Isabelle, que nada sabia sobre o que tinha nas mãos, e também ao do leitor, que provavelmente também ignora as minúcias da pesca atuneira.

Karen não é um “humano standard”, isto é, típico, “normal”, mas não quero contar o que a difere dos outros, porque a descoberta é um dos prazeres da leitura. De todo modo, ela nos mostra todo o seu processo de aprendizagem do que é ser um ser humano e do que é ser um ser vivo entre outros do planeta. Posso dizer que com ela eu mesma aprendi o que constitui nossa humanidade, (re)aprendendo a viver com quem teoricamente não sabia viver.

A linguagem do livro, sua sintaxe, seu vocabulário, é toda perpassada pelo aprendizado de alguém que entrou em contato tardiamente com a linguagem. Lembra alguém que aprende uma segunda língua: mas aqui a língua materna é também uma língua estrangeira – para Karen todas as línguas são estrangeiras, o que talvez explique que ela se torne fluente em três línguas (talvez fluente não seja a palavra adequada: não há nada fluente na linguagem de Karen). No entanto, essa linguagem aparentemente truncada não deixa de ter um certo lirismo: me lembra Borges e seu fascínio por listas, dicionários, enciclopédias, como nesta passagem em que ela apresenta um manual para conservar o alinhamento com a realidade:

1) Estar sempre centrada em meu peito.

2) Ouvir como dentro dele a realidade se pensa em mim.

3) Quando a realidade se desprende de Eu ou Eu da realidade, agarrar a realidade de novo. Agarrá-la com cada sentido. Ou seja, agarrar com as mãos o que é próximo, as correntes da roupa de mergulho, por exemplo. Cheirar e ouvir com cuidado o que está perto, por exemplo, pela janela, o mar. E olhar com paciência a realidade, por exemplo, o mar, o céu, o horizonte ou o que estiver por perto. Ou seja, conectar-se outra vez, através de cada sentido do corpo, à realidade. (Berman, 2012, p. 237)

O olhar de Karen alterou o meu irremediavelmente, como os olhares dos bons narradores nos alteram para sempre. E Sabina Berman me ensina novamente o poder de um bom livro: mudar pessoas, mudar o mundo.



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