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Adeus, Gana (ou, no meu caso, Olá, Gana): breve resenha do livro de Taiye Selasi

Por Rachel Rabello
02/03/20 - 17:17

Há poucos meses assinei um clube de leitura, um mimo pessoal. Já conhecia a empresa desde sua inauguração e achei a ideia linda, receber em casa um livro por mês, escolhido por escritores e intelectuais diversos... mas pensei: por que deixar que outros escolhessem livros por mim se uma das coisas que mais gosto de fazer é ir à livraria e desbravar suas estantes? Então compreendi que há escolhas que eu nunca faria – não por falta de interesse ou algo do tipo, mas por falta de informação ou acesso. Foi o caso de Adeus, gana, de Taiye Selasi, escritora (e cineasta, fotógrafa, roteirista) que se autodefine como afropolitana: filha de mãe nigeriana e pai ganense, Selasi nasceu em Londres, cresceu em Boston e viveu em outras tantas cidades do mundo (Acra, Nova York, Roma e Berlim, onde hoje mora).

Publicado em 2013, Adeus, Gana é seu primeiro romance (inédito no Brasil até ser publicado por esse clube de leitura). O livro conta a história de uma família de origem africana (Gana e Nigéria) radicada nos Estados Unidos. O ponto de partida é a morte do patriarca, Kweku Sai, famoso cirurgião ganense, e as implicações emocionais e psicológicas causadas por sua morte nos demais membros da família. Uma família partida, despedaçada, espalhada pelo mundo. “Ela tinha pensado em lançar as cinzas para a brisa do mar, para deixar o homem livre, terminar onde começou e tudo o mais. Mas agora, quando gira a tampa, não consegue fazer isso. A ideia de espalhá-lo parece, de certa forma, errada. Nós nos espalhamos o suficiente, ela pensa. Um vaso quebrado, fragmentos” (p. 359).

Selasi tem uma escrita intensa e imagética (não gosto do termo “poético” quando associado à prosa, pra mim é como se dissessem que uma escrita poética, ou imagética, não tem força como prosa, mas como poesia – e isso não é verdade, uma coisa não invalida a outra, na minha opinião. Além disso, geralmente esse “poético” é associado à literatura feita por mulheres). Narrado em terceira pessoa, a autora faz uso do discurso indireto e indireto livre, o que nos faz ter acesso à lógica de pensamento e às sensações de cada personagem, um narrador quase invisível, mas não menos presente.

Sobre o enredo, não pretendo revelar mais nada, apenas reiterar que se trata de um livro sobre uma família sofrida. Como disse Tolstói, “todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. No entanto, a escrita de Selasi me faz ter a impressão de que as famílias infelizes também se parecem... Abaixo, um trecho com o qual muito me identifiquei:

“(...) Ela se inclina para examinar os olhos".

O tom e a forma são iguais aos de seu pai (e de Olu), mas algo mudou ao longo do tempo; eles estão mais parecidos com os do pai do que ela havia previamente notado ou mais parecidos com os do pai do que eram previamente. Pensa nele com menos frequência do que se olha no espelho, então é rara a oportunidade de se lembrar de seu rosto, compará-lo ao dela, como faz neste momento. Os olhos dele no rosto dela, onde seus próprios olhos costumavam ficar. Os olhos dele, com seu verniz de luto e suas linhas de riso, o castanho ainda mais suave pela dor, pelo sofrimento: são esses os olhos que Fola vê no espelho. Encara, sem acreditar. Toca o vidro. Os olhos do pai cintilam sob a luz da janela atrás dela, iluminados pelas lágrimas que despontam neles. Uma escorrega pela sua bochecha e ela toca a gota, do jeito que alguém ergue um dedo para a chuva que começou a cair” (p. 299).

Recomendo a leitura a todos que quiserem conhecer uma nova escritora, com cenários e personagens tão diversos dos usuais e, no entanto, tão semelhantes.


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