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Se você engolisse suas palavras, elas seriam alimento ou veneno?

Por Hamilton Werneck
17/08/20 - 11:29

Esta é uma pergunta para fazer pensar. Há pessoas que são amargas pela própria natureza, tudo enxergam como negativo. Não somente a estrutura da fala e o teor linguístico dos textos escritos ou verbais apresentam a cor verde do fel facilitador da destruição dos alimentos ingeridos, mas terríveis em causar enxaquecas com origens diferentes. Há pessoas tão azedas em suas considerações que pouco sobra para seus elogios.

Nós encontramos com estes seres por todas as partes. Em épocas de eleições, ninguém presta ou tem competência para dirigir uma cidade; nunca encontram um candidato que atenda aos seus desejos. Estes, ante a obrigatoriedade do voto, saem de casa, votam em branco, anulam ou simplesmente dormem durante o dia, evitando as urnas. São pessoas, no fundo, profundamente tristes, vivem fora do convívio humano, especializam-se em provocar descarga de adrenalina na corrente sanguínea e, por isso, andam cheias de dores, taquicardias, corpo cansado, dores de cabeça, aparelho digestivo desregulado, irritação generalizada. O estado normal é estar em estado de beligerância com alguém.

Estes, se engolirem o que falam, certamente serão vítimas do próprio veneno. Tal a força danosa dos ácidos vorazes que competem com o cianureto de potássio, um veneno mortal. Há um quadro mais crítico: estas pessoas, na verdade, são imbecis, sem saber que o são. Sofrem os que convivem com elas nas fábricas, transporte público e caminhando pelas feiras. Além de usar palavras que, se ingeridas, podem matar, usam falas que, se ouvidas, aborrecem profundamente quem foi alvejado.

As palavras que mais envenenam quem as pronuncia são, exatamente, as que levam à discórdia. No passado, os gregos usavam dois prefixos para definir aquilo que agrega, daquilo que desagrega. O prefixo SIM, de onde deriva a palavra SIMBÓLICO, junta-se ao verbo BALÉIN que significa jogar. Desse modo SOMBÓLICO é aquele que joga, que age a favor, junto; o outro prefixo é o DIÁ que tem significado de “ SER CONTRA”, desse modo, adicionando-se o mesmo verbo BALEIN, temos a palavra DIABÓLICO que é, exatamente, o que joga contra, que faz gol contra, que atrapalha e provoca separações, confusões e brigas. As palavras diabólicas envenenam e muitas pessoas agem assim. O diabólico, antes das conotações religiosas ou supersticiosas é uma pessoa que se engolisse o que fala, já teria morrido há muito tempo.

A questão é que essas pessoas têm uma resistência enorme, além de uma facilidade de comunicar as desgraças em seu meio, conseguindo desagregar o que estava agregado. Nem todos os que ouvem ou leem as palavras desagregadoras conseguem livrar-se delas com facilidade. De modo que, se o emissor não engole as palavras que pretende usar, pode causar envenenamentos fora de si mesmo.

A sociedade está cheia dessas situações, mudando a cada época, os nomes, fazendo permanecer o significado. Pós verdade é uma delas. Não é mentira, mas não é verdade. Há uma parte que está correta e, outra, incorreta. Há, inclusive, os que defendem que devemos aproveitar tudo o que for bom, nas ideias, nas pessoas e nas coisas. É uma visão cartesiana que tudo segmenta. Na verdade, as palavras, as pessoas e as coisas não estão desligadas de seus contextos, então torna-se muito difícil fazer esta separação, pois tudo está ligado a tudo, podendo ser um princípio do xamanismo ou do pensamento de Pascal no século XVII, quando criticava Descartes pela mania de tudo segmentar e dividir.

Se chegarmos às fake News, então não há o que discutir. Ali tudo joga contra, aproveitando, inclusive, os princípios da liberdade de expressão. Mas, que liberdade é essa que permite difamar, caluniar, agredir e ofender? Certamente se quem escreveu ou divulgou uma fake News engolisse a notícia, morreria envenenado.

O diabólico é esperto e inteligente. Nunca se apresenta com a cara do mal, pelo contrário, tem grande capacidade de disfarce que me faz lembrar de um dos filmes emblemáticos, a Última tentação de Cristo, quando ao pé da cruz surge uma linda criança, jamais pintada por Boticelli como um anjo de altar principal de uma catedral. Ela provoca o crucificado dizendo que Ele já havia cumprido sua missão, que usasse seus poderes, saísse daquela cruz e proclamasse este sensacional milagre. São segundos transformados em vinte minutos que voltam à cena anterior, Cristo assumindo o seu papel de Redentor e a linda criança desaparecendo, compreendida, agora, como algo diabólico. E, assim, cumpriu-se a profecia!

Agora estou pensando, ao final deste artigo, sobre as palavras que nele escrevi. Quantas me alimentaram e quantas teriam me envenenado? É provável que o leitor as descubra!


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