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Entre a academia e a realidade – segunda viagem pelo Brasil

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Por Hamilton Werneck
27/04/20 - 15:48

Você, leitor, está convidado a participar de uma segunda viagem pelo Brasil. Nosso deslocamento será na direção do nordeste, descendo no aeroporto de Teresina e seguindo de carro para o Maranhão. Vamos atravessar a cidade de Timon que está do outro lado do rio e seguir para Caxias. Esta cidade maranhense é o berço da Balaiada, revolta da época do império que chegou a reunir um “exército” de mais de três mil escravos. Foi por causa do nome desta cidade que Lima e Silva recebeu o título de Duque de Caxias. As ruínas podem ser visitadas assim como o museu que fica bem em frente à Universidade do Estado do Maranhão – UEMA. Gonçalves Dias nasceu neste município, mais propriamente num antigo distrito, hoje município de Aldeias Altas. E essas terras têm palmeiras e “as aves que aqui gorjeiam” são as aves verdadeiras desejadas pelo poeta na Canção do Exílio.

Nós vamos, agora, visitar Aldeias Altas, vamos nos espantar com a realidade das escolas e vamos verificar o início das transformações.

Aqui os sabiás cantam nas palmeiras por falta de laranjeiras e, não, por ignorância ecológica do poeta, dado que bico de sabiá terá sempre uma grande dificuldade de furar um coco.

Lembro-me da cantora que desejava “carneiros e cabras pastando no meu jardim"...

Conheci este município no início de 2005, uma semana antes do início do ano letivo e recebi do prefeito José Reis um DVD com o relato do estado das escolas rurais. Eram palhoças. Poderíamos chamar de escolas-estábulo. Verdade. Cenas dão conta de cabras defecando dentro da sala de aula. Todas elas feitas de barro de sopapo, cobertas com folhas de babaçu. Nenhuma possuía porta ou janela. Para entrar era necessário remover pequenos troncos enfileirados que impediam a entrada de animais. O chão de terra, cheio de buracos impedia a estabilidade das carteiras, muitas delas quebradas e encostadas às paredes de barro. Impossível ensinar alguém a ler e escrever ou fazer exercícios e controle motor grosso e fino com a instabilidade das carteiras.

O DVD relata a presença do prefeito recém eleito visitando com a secretária de educação, professora Lousa e sua chefe de departamento de educação essas instalações precárias. O ano escolar estava à frente, os entrevistados solicitando reformas imediatas e, os alunos, as maiores vítimas, aguardando um porvir incerto a ser desenvolvido por educadores ganhando muito pouco, tendo a salvação na futura aposentadoria configurada em um salário mínimo que, à época, representava muito mais que o salário percebido pelos professores.

Havia algumas escolas de alvenaria, uma delas construída pela metade, onde as paredes serviam de varal de roupa. Noutra havia um pequeno sanitário abandonado e cercado pelo mato.

Se o país tem a fisionomia de sua escola pública, como dizia um ex-ministro da educação, era de se esperar um ar sofrido e sem esperança no semblante daquele povo.

Vivendo a academia e as propostas de análise do contexto, abraçando a complexidade de Edgar Morin estava ali um escritor e conferencista como que contemplando os destroços de uma batalha, convivendo com o “caótico estruturado” de que nos fala o formulador da teoria da complexidade aplicada à educação.

Mas, na verdade, veio à mente a palavra de Pierre Bourdieu quando argumenta que “é possível conhecer o mundo social de três formas: fenomenológica, objetivista e praxiológica. O conhecimento fenomenológico representado na sociologia contemporânea por correntes como a etnometodologia e o interacionismo simbólico, restringir-se-ia, segundo o autor, a captar a experiência primeira do mundo social, tal como vivida cotidianamente pelos membros da sociedade” (Bourdieu, 1983 in Nogueira, 2004).

Ali estava eu captando a experiência do mundo social, aquela vivida pelos habitantes das aldeias, vivendo a pobreza e as restrições impostas pela estrutura e conjuntura.

Mais importante sentir de perto a realidade que, academicamente, conhecê-las por vídeos.

Almocei com os professores depois de uma conferência sobre a necessidade da formação continuada, conferência essa solicitada pela própria Secretaria de Educação.

Foi nesse almoço que tomei conhecimento dos planos do Prefeito Municipal acerca das escolas-palhoças-estábulos. Ele pretendia reconstruir as vinte e nove escolas, todas elas em alvenaria, dotando de dignidade a educação, a começar pelos prédios, na terra que foi berço de Gonçalves Dias.

De minha parte e em minha consciência tomei também uma decisão: voltaria, um dia qualquer a Aldeias Altas, contanto que o projeto estivesse sendo colocado em prática.

No ano de 2006, quando participei de um congresso de educação em Caxias, organizado pelo oitavo período de pedagogia da UEMA, sob a liderança dos acadêmicos Janailson, Thais Kelma, Joelma, Andréia, Simone e Francidalva recebi uma série de informações sobre Aldeias Altas: primeiro havia neste congresso um número significativo de educadores da Secretaria de Educação; segundo informaram-me da construção de oito escolas e início de mais seis, o que foi confirmado por telefone pela Secretária de Educação.

Era um plano que dependia de vontade política sendo colocado em prática num município de poucos recursos financeiros.

E, para não perder o contato com a academia relembro as considerações de Bourdieu sobre o capital econômico e cultural numa sociedade. As escolas-palhoças-estábulos atendiam a uma necessidade social que desejava transferir para seus filhos – entendendo-se os filhos das famílias abastadas – somente um capital econômico, sobretudo porque essas crianças não estudavam nessas escolas. As escolas de alvenaria, se representarem uma transformação além da pedagogia do concreto armado, (Werneck, 2004) terão a possibilidade de transferir um capital cultural para os filhos daqueles que lá estudam, a absoluta maioria de famílias muito pobres que vivem da agricultura de subsistência. Os portadores dessa cultura serão os professores. Estes, na atualidade, conseguem um modesto salário um pouco acima de US$ 250. Essa a diferença para os US$ 80, que anteriormente recebiam.

Chegamos ao final de mais uma viagem. As duas com desfechos positivos.

E, para resumir, poderíamos dizer que caminhamos entre escolas que se reconstroem, educadores que se licenciam, salários que saem do patamar do horror e ameaçam melhorar, universidades que buscam o interior para formar professores, secretarias de educação que se preocupam com a formação continuada, enquanto os professores leigos dão lugar a professores com formação adequada.

Se Bourdieu e Louis Althusser tiveram razão ao considerar a questão de que “a sociedade produz e a escola reproduz” (Althusser, 1974), no mínimo poderíamos depreender dos gestos de uma UEG ou UEMA ou de alguns prefeitos de cidades do interior que estaríamos num momento de procurar uma reprodução em patamar mais elevado que os estabelecidos pelo Brasil colonial e que, indevidamente, se perpetuam em alguns municípios.

Pena que em muitos rincões e cantões deste país ainda seja reproduzida uma educação para "pobre continuar pobre” (Werneck, 2006) refletindo uma sociedade que produz no estágio primário, forçando para continuar primária a reprodução cultural.

De fato, não é a pedagogia e, sim, a sociologia que faz o estudo do fato social. É verdade também que Vigotsky assinala constantemente para a contextualização e para as regiões proximais, onde o aprendizado se dá de modo mais seguro que nos espaços remotos. Quando analiso o fato parece que estou mais próximo da sociologia que, propriamente, da pedagogia. Como conclusão reafirmo minha visão sobre a complexidade, esse prazer de conviver em conjuntos-reunião, onde uma e outra coisa estão em choque contínuo como partículas num túnel de aceleração das experiências de Illia Prigogini. Vivo, portanto, a verdadeira lei da precessão que, quando aplicada às ciências humanas, provoca o choque, onde as realidades concretas são os túneis de aceleração. E, melhor que tudo isso, é o resultado: não é possível, depois do choque, ser o mesmo. Nem o pedagogo, nem o sociólogo serão os mesmos porque o choque entre o sítio da pesquisa e a academia produz uma transformação para ambos. Resta ter a habilidade de uma Tereza de Calcutá que dizia: “ninguém tem o direito de se afastar de alguém, sem deixa-lo melhor”.


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