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Uma história perfeita

Por George dos Santos Pacheco
17/02/21 - 08:05

O ser humano vive, basicamente, de contar histórias, caros terráqueos. Não acham? Ora, a gente passa o dia inteiro contando histórias, todos os dias e desde a época das cavernas. E se o homo sapiens inventou um lance em que há oportunidade, por excelência, de conhecer causos dos mais variados possíveis, este é, sem sombra de dúvidas, o churrasco.

Em um evento desses, todo mundo quer contar alguma coisa! Tem de tudo: experiências, piadas, sociedade, política... E se há várias maneiras de narrar uma história, eu sempre acreditei que as melhores anedotas eram as mais ricas em detalhes. São eles os responsáveis por torná-las mais cativantes, mais envolventes, verossímeis.

Seria este o segredo perdido da história perfeita? Talvez.

Aquele churrasco era do Gordinho, amigo de longa que comemorava a aposentadoria. O sujeito era divertido, viajado, interessado em cultura estrangeira e sempre convertia qualquer papo furado em erudição, característica que o tornava um excelente contador de histórias. “Sabiam que churrasco vem do antigo basco ‘sukarra' formada por ‘su', ‘fogo’, e ‘karra', ‘chama'?”, dizia ele, enquanto virava peças de contrafilé na grelha.

– Nesses mercados árabes – continuava, concomitantemente às outras rodas de conversa – não se pode tocar nos produtos. – Sabe essa mania que brasileiro tem de ficar pegando nas coisas? É tipo uma feirinha cheia de tendas com as mercadorias – sapatos, tecidos, bicho... Cara, é um cheiro maravilhoso de temperos! E você fica negociando com os vendedores. Mas se tocar em qualquer coisa, tem que levar! – concluiu, quando o assunto evoluiu do churrasco, para um prato árabe e daí para a feirinha regional.

– Foi lá que aconteceu... – disse um senhor de bigodes ao meu lado, como se eu partilhasse uma informação em comum. – Ah, desculpe, você não sabia, não é? A abdução. – explicou, ante minha perplexidade. – Eu estava de férias. Voltava a pé para o hotel em que estava hospedado, isso faz mais de trinta anos. A rua estava deserta, uma dessas ruazinhas de interior, mal cuidada, o mato invadia a estrada. Cruzei com pouquíssimas pessoas pelo caminho, alguns pastores com suas cabrinhas. De repente, uma luz fortíssima pairou sobre mim, me ofuscando, e senti meu corpo leve, muito leve. Acho que desmaiei, porque só me lembro de acordar numa grande sala branca, repleta de aparelhos eletrônicos nas paredes...

“Não seria, talvez, porque estivesse completamente bêbado de tanto arak?”, pensei, enquanto procurava discretamente alguém que pudesse estar falando de política ou religião. Mas ele continuou, após uma golada de qualquer coisa que eu não soube identificar na hora, como numa pausa estratégica para criar mais suspense. “Em minha volta, três humanoides, mas não eram como esses que a gente vê nos filmes, não... eles pareciam três suecas, longos cabelos loiros, olhos azuis, pele pálida e coberta de diminutos pelos dourados. Acho que implantaram alguma espécie de chip em mim, olha.” – explicou mostrando-me o pulso direito, com uma discreta cicatriz. – “Senti meus olhos pesarem e quando os abri novamente, estava caído ao chão, em um lugar que não fazia ideia de onde era. Tudo mudou desde então...” – concluiu ele num tom soturno.

Apenas acenei com a cabeça, sem saber o que comentar. ETs suecas nos arredores de Dubai? Fala sério. Yo no creo en extraterrestres, pero que los hay, los hay!

– Comigo também foi assim... – disse outra figura, com os olhos já bem pequenos e sorriso fácil – Eu estava num churrasco feito este. Tinha comido só um pratinho com costela, arroz com molho à campanha e tomado algumas cervejinhas. Daí me ofereceram uma dosesinha de catuaba. Eu bebi uma, duas, três... e fechei com uma caipirinha. Meu amigo... parecia que eu tinha virado do avesso. Desmaiei e acordei sei lá que horas, sem saber quem eu era e onde estava. Tudo mudou desde então...

– Parou de beber? – perguntei, curioso.

– Tá maluco? Deus me livre! Não como mais arroz em churrasco. Faz um mal danado! – concluiu o gaiato explodindo numa gargalhada.

– Ah, mas e se fosse um arroz à piamontese? – perguntou o outro que chegara com ele. – Esses dias foi meu aniversário de casamento, te falei? Comprei uma orquídea rara, uma caixinha de bombons de chocolate meio amargo e preparei o jantar. Bife à escalopinho com arroz à piamontese e batatas coradas. Arroz à piamontese leva um molho branco, com champignon e até um pouco de muçarela. Pra acompanhar abri um cabernet, servido na taça e tudo. Velinhas sobre a mesa. Fiz questão de reparar nas unhas e nos cabelos bem cuidados. Que noite! Fomos até altas horas e acabei chegando atrasado no serviço.

– E aí? – perguntei, curioso.

– Oras, “e aí”... fui demitido. Justa causa. Aquele sem vergonha disse “amigo, você poderia ter inventado uma dor de barriga, que perdeu o ônibus, que o relógio não despertou, que assistiu ao desfile da Saudade até a madrugada... olha, você poderia ter inventado até uma abdução. Mas convenhamos, você me chega aqui, em plena quarta-feira de cinzas, quase ao meio dia, contando uma história super bonitinha do cara que lembra o dia do casamento, que compra flores, chocolate, prepara um jantar especial com vinho e o escambau, repara nas unhas e o cabelo da mulher... e ainda quer que eu acredite? Isso aí é o marido exemplar. E nós dois sabemos muito bem que isso não existe!” – concluiu com ar tristonho e ligeiramente ofendido.

Pigarreamos e, como num acordo tácito, mudamos de assunto.

Confesso que de vez em quando me engano com as minhas convicções. Vá lá, não existem regras perfeitas ou verdades absolutas. Em algumas situações, os pormenores e minúcias de uma história podem corromper uma verdade.


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