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A vida tem dessas coisas

Por George dos Santos Pacheco
16/08/23 - 09:37

“Perdi a hora, mas encontrei você aqui. Desde aquela noite, eu nunca mais me entendi." (Ritchie)

A recomendação era bem simples: por o carro no estacionamento e encontrar Dona Maria no mercado. Abre parêntese: já reparou, terráqueo, que a maioria das minhas aventuras e desventuras acontecem em estacionamentos, mercados, padarias e similares? Não é falta de criatividade, não. Entenda bem. Além de cronista eu sou pai de família, ô, rapá! Nada mais natural, ué. Fecha parêntese.

Acontece que por mais simples que seja a recomendação, sempre há um porém. Demorei coisa de cinco minutos pra sair de casa, encontrei uns três sinais fechados, um carro quebrado, dois “gente boa" que fecharam um cruzamento... e os cinco minutos viraram quinze! Putzgrila!

Chegando ao estacionamento, manobrei o carro rapidamente, a mão girando espalmada no volante, pra lá e pra cá; fechei os vidros; desliguei o rádio e tranquei a porta. Saí caminhando, apressadamente, olhando para trás naquela última conferência, quando dei de cara com uma mulher parada no meio do caminho, um carro de passeio desligado logo atrás dela, o braço esticado para a minha direção com um molho de chaves na mão.

– Fecha que horas, moço? – perguntou, com o olhar intrigado, a bolsa pendurada a tiracolo.

– Desculpe, eu... eu não trabalho aqui! – respondi sorrindo, no momento em que o verdadeiro funcionário se aproximava. Já aconteceu com você também, terráqueo? Comigo a frequência é absurda, quase preocupante, chego a estranhar quando não acontece.

– Fecha sete horas, senhora... – disse o homem, colhendo suas chaves. “Ah, desculpa, moço!”, falou a mulher, constrangida. Sorri para ambos, pedi licença, guardei minhas chaves, peguei o ticket na guarita e segui para o ponto de encontro.

Parei à beira da calçada, e embora estivesse consideravelmente atrasado, aguardei que os motoristas franqueassem a passagem com os pisca-alertas ligados e acenos de mão. Acho uma puta de uma sacanagem o pedestre forçar a travessia. Cheguei ao extremo oposto a passos largos, a respiração levemente ofegante. O céu estava azulzinho, iria esfriar bastante aquela noite.

Naveguei entre as pessoas circunstantes na calçada, indo e vindo para lá e para cá, em um desumano indiferentismo. Encontrei Dona Maria em um dos corredores do mercado, observando as gôndolas.

– O que aconteceu? – perguntou, beijando-me, uma pequena lista rabiscada nas mãos.

– O de sempre. Sinais fechados, carreatas, procissões, obras, caminhões de lixo, buracos... tudo o que você pode imaginar. – respondi, após o beijo. Afastei um pouco para o canto para que um cliente passasse pelo corredor com seu carrinho.

– Fica aqui e compra essas coisas. Eu vou à farmácia. Quando concluir, deixa as sacolas no carro e depois me encontra em frente à Galeria São José. – disse ela, outro beijo (mais apressado) e saiu, deixando a lista em minha mão.

“Ok!”, respondi, acompanhando-a com o olhar, até que ela sumisse de vista. Conferi rapidamente a lista e caminhei lentamente olhando as prateleiras. “Onde eu encontro ‘Polvilho para Tapioca’?”

– Onde eu encontro “Polvilho para Tapioca”? – repetiu o senhorzinho magro de queixo proeminente, chapeuzinho suíço, camisa social de mangas compridas, calça de tergal bege. – E o preço desse aqui? Está sem etiqueta... – concluiu, aproximando-se e mostrando um pacote de fubá na mão trêmula. Mal pude acreditar. A segunda vez no mesmo dia? Se acontecer mais uma eu posso até pedir música no Fantástico.

– Senhor... err... eu não trabalho aqui. – informei, com o cenho franzido. Francamente eu não faço ideia da origem da confusão: se é meu jeito de me vestir, de caminhar, falar... não sei. E devo estar longe de descobrir.

– Ô, meu filho, me desculpe! Mas é que você estava parado aí e eu me confundi. “Me desculpe” mesmo... – disse o senhor, corando de vergonha e se afastou.

– Nada! – respondi e também segui eu para os meus afazeres, antes que me atrasasse novamente (Deus me livre e guarde!).

A recomendação era bem simples: comprar os itens da lista, deixar as sacolas no carro e depois encontrar Dona Maria em frente à Galeria São José. Cinco minutos, dez minutos... e nada da Dona Maria. Comecei a ficar impaciente. Entrelacei as mãos atrás do corpo e pus-me a caminhar próximo na entrada da galeria, de um lado para o outro, de vez em quando parando num canto, de braços cruzados. Uma mulher se aproximou pelo meu lado esquerdo, seguida de seu filho adolescente, presença que notei pelo canto do olho, enquanto buscava Dona Maria no fluxo de pessoas no passeio.

– Boa tarde! Senhor porteiro? O senhor poderia informar, por gentileza, em qual andar fica o consultório da Dra. Adriana?

Ô, Tadeu Schmidt! Toca “A vida tem dessas coisas"! Dedicado para Dona Maria, hein!


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