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O dia em que conheci minha mãe

Por George dos Santos Pacheco
06/05/26 - 09:55

"Tudo é incerto neste mundo hediondo, mas não o amor de uma mãe." (James Joyce)

Vez em quando, me pego distraído, encarando o horizonte, uma parede pichada ou uma folha caindo em espiral, enquanto a mente divagava por hipóteses e teorias, em devaneios oníricos e fugazes, numa espécie de projeção astral. Isso acontece com todo mundo, é claro. Com o senhor também não?

Pode ser falta de vitamina B12 ou D, já me disseram isso. Pois, em um desses dias, quando a consciência vagava sem foco específico, dei-me conta de que não me lembro do dia em que conheci minha mãe. Por mais que me esforçasse, percorrendo todo o caminho de volta, não conseguia recordar a ocasião, ainda que tão solene e significativa. Corei de vergonha. Como posso admitir uma coisa dessas a ela? Com certeza, vai ficar magoada, achar que é pouco-caso. Putzgrila.

Não lembro o dia em que a conheci. Contudo, percorrendo os dias de minha vida, percebi que ela estava comigo quando senti fome, sede e frio; quando tive dúvidas e quando tive certezas; quando me apoiei sobre os próprios pés pela primeira vez. Ela estava lá quando caí, quando me levantei, quando chorei de raiva, de medo e de tristeza. Esteve presente o tempo todo, desde antes de eu nascer, desde o início dos tempos. Talvez por isso as mães tenham algo de divino. Quem nunca ouviu dizer que "mãe sabe das coisas" ou teve a impressão de que ela está em todos os lugares? Só assim mesmo para dar conta de tudo.

As buzinas ressoaram, e precisei arrancar com o carro após o semáforo mudar de cor. Ergui o braço para fora da janela e acenei, pedindo desculpas, antes que alguém xingasse a minha mãe. Só faltava essa: além de não me lembrar de quando a encontrei pela primeira vez, ainda vê-la ser insultada no trânsito sem estar ali para se defender. Mamãe nem dirige, pô!

Continuei guiando o carro, mas minha mente era como uma pipa levada por um vento forte, com o carretel de linha se desenrolando ferozmente até o brinquedo virar apenas um pontinho distante no céu. Eu não me lembro do dia em que conheci minha mãe! Senti o coração bater acelerado e o rosto enrubescer novamente. Não posso admitir isso a ela, de jeito nenhum. Mas, ainda que o fizesse, desde aquele instante eu já sabia: estava perdoado. Por isso, por aquilo e até pelo que nem havia feito. As mães têm algo de divino, sim. Mãe é mãe. Graças a Deus!


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