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Tecnologia a serviço de quê?

Talvez seja a hora de responder a perguntas complexas

Por Conrado Werneck Pimentel
20/02/20 - 13:57
Tecnologia a serviço de quê? Foto: Banco de Imagem

Para quem conhece um pouco da história do desenvolvimento da humanidade, desde seus tempos mais remotos, o caminho que aparentemente estamos tomando pode nos deixar perplexos. Toda a tecnologia da Mesopotâmia voltada para a agricultura, das civilizações incas, maias, ameríndias, até a sociedade moderna, com suas máquinas a vapor, automóveis, tecnologias de comunicação, difusão e, por fim, produção de conhecimento embasado cientificamente prometera, as mais variadas possibilidades de desenvolvimento humano. Contudo, a tecnologia, até então, nos aprisionou tanto quanto ou mais nos libertou. Parece um contrassenso: se podemos nos empenhar menos para produzir mais e melhor – de pequenos textos como este a maquinários pesados e até mesmo energia limpa e renovável – por qual motivo temos menos tempo para nos dedicarmos a outras coisas? A verdade é que o desenvolvimento tecnológico não trouxe necessariamente uma emancipação ou uma autonomia que, em tese, tal desenvolvimento poderia nos trazer.

Este contrassenso, de forma aparente, apenas, foi colocado à prova pelas lutas em meados do século XIX e início do século XX, quando trabalhadores das grandes cidades do capitalismo exigiam redução de carga horária. “8 horas de sono, 8 horas de trabalho, 8 horas de lazer” eram os dizeres de um conhecido panfleto. A cada década, uma luta a mais a ser travada pelos trabalhadores, que perduram até hoje.

Muitos compreendem que a ciência não é neutra. Nem boa nem ruim. Nos trouxe a bomba atômica, nos trouxe o napalm, nos trouxe a vigilância em massa, nos trouxe a cura do sarampo, o tratamento da AIDS, da varíola. Nos acostumamos a isso tudo de tal forma que um debate imprescindível não é travado. Quando é que a tecnologia e a ciência vão nos permitir, como humanidade, atingir níveis de civilização que ainda não vimos? O caminho que trilhamos, até aqui, é o mais do mesmo, disfarçado de novidades para o mercado consumidor, que mais nos escravizam do que nos libertam. A tecnologia é uma extensão do homem? As redes sociais são uma outra camada de expressão e comunicação? Elas nos servem ou nos deixamos servir a elas? Levanto todas estas questões para colocar em discussão aquela que acho uma das mais importantes: o intelecto geral que nos trouxe até aqui, independentemente de terem sidos usados de boas ou más formas, são de propriedade da humanidade. A humanidade as produziu, as passou para frente, e, tal qual Isaac Newton notou, foi apoiando-se em ombros de gigantes que chegamos até aqui. O intelecto geral – a propriedade intelectual e as patentes, por exemplo – são de todos. É comum à história da humanidade e dela detentora, não de algumas dúzias de conglomerados que licenciam um código-fonte ou uma tecnologia ao bel-prazer dos privilegiados (que, por vezes, podem ser até mesmo visionários). Isso certamente afeta o desenvolvimento das sociedades, posto que servem como limitações para o desenvolvimento de novas tecnologias.

Não colocar à vista questões que, por um lado, podem parecer ultrapassadas e, por outro, utópicas ou irrealistas demais, vão continuar a nos deixar em um imobilismo civilizatório, à mercê de pretensos ditadores, da selvageria do mercado ou à custa de um modelo de sociedade predatório. Não se trata de alarmismo: trata-se do horizonte que poderíamos buscar, ao invés de continuarmos acostumados à tormenta que se projetou de forma falsamente natural aos nossos olhos. Perguntas complexas exigem respostas complexas, que desafiem a ortodoxia da realidade e das possibilidades.


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