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O mundo pós-pandêmico: duas alternativas

O que a reconversão industrial e o decrescimento podem trazer de novo

Por Conrado Werneck Pimentel
06/05/20 - 10:12
O mundo pós-pandêmico: duas alternativas	Foto: Banco de Imagem

O Brasil e o mundo estão vivendo um dilema, como que uma grande discussão interior, no seio da própria sociedade. No pós-pandemia voltaremos a viver como se nada tivesse acontecido? É claro que não e todos sabem disso – outros hábitos já terão se incorporado ao cotidiano de bilhões de pessoas, teremos outras formas de higiene e de preocupação com a saúde de si e do outro. Mas e quanto às atividades industriais, quanto ao consumo de supérfluos, quanto à distribuição de bens essenciais, quanto à manutenção de serviços públicos, como a saúde? Isso tudo ainda está em xeque e talvez este seja o momento mais propício para começarmos a mudar situações determinantes dos nossos tempos. Como já disse nesta coluna diversas vezes – perguntas complexas exigem respostas complexas, e o simplismo em um momento como este pode ser o martelo no último prego do caixão da humanidade.

Se a grande maioria dos comércios e das indústrias estão paradas, assim o estão por uma crise do sistema sob o qual vivemos, e não por um vírus que se desenvolveu e chacoalhou este mesmo sistema. Com a suspensão de diversas cadeias de produção e distribuição de bens de consumo, é inegável que o próprio meio ambiente, de certa forma, agradece, por ele próprio poder respirar melhor e, consequentemente, nós também. Águas de rios, mares, lagos e lagoas estão menos poluídos, o ar está mais limpo. É possível pensarmos em retomar todo o rastro de destruição que deixamos pra trás depois disso tudo? Ou precisamos pensar em formas de gerenciar a vida do próprio planeta e, consequentemente, a nossa e das gerações que estão por vir? Qual é a resposta que daremos, enquanto sociedade, a este momento trágico?

É curioso pensar que, assim como não pensávamos que viveríamos quarentenas ou o distanciamento físico e social, também não pensamos que iremos viver outras catástrofes, talvez até mesmo maiores, como as ambientais – não necessariamente aquelas dos filmes apocalípticos – mas o simples pensamento de vivenciar tais momentos são logo repelidos: “não será comigo”, “não viverei isso”, “isso não é culpa minha”, e por aí vai. Mas está dado, é uma realidade que virá e, talvez – talvez – este momento possa servir como um aprendizado. Como se nos fosse dado uma chance de parar, respirar fundo, pensar melhor no que fazemos enquanto indivíduos e sociedades para que o estado de coisas não se deteriore. O coronavírus mostra, para quem até então não acreditava, que outro mundo não só é possível como necessário.

Duas ideias estão sendo debatidas em âmbitos nacional e internacional:

Uma delas é a reconversão industrial. É o que estamos vendo, por exemplo, com algumas indústrias têxteis de Nova Friburgo: foram adaptadas para a produção de máscaras para a proteção das pessoas. A STAM, a maior produtora de cadeados do Brasil, começou a produzir protetores faciais. A ideia da reconversão industrial para tempos de pandemia é uma forma de manter empregos e o giro de empresas, mas, na verdade, ela está além disso: demonstra, dessa forma, como ela pode dar um retorna efetivo à sociedade. No caso, com equipamentos de proteção individual. Mas, e no geral, e, mais ainda, nos tempos pós-pandemia? Essas e tantas outras indústrias voltarão a poluir o meio ambiente, serão gerenciadas voltadas ao lucro pura e simplesmente ou terão uma função a mais no bem-estar da sociedade?

Há também a ideia do decrescimento - uma resposta ao crescimento desenfreado das economias capitalistas do século XX. Visando justamente a desaceleração do crescimento baseado principalmente, na exploração de recursos naturais finitos, a ideia do decrescimento vem ganhando cada vez mais relevância nos últimos tempos. Recentemente, cerca de 170 acadêmicos holandeses apresentaram uma alternativa ao modelo econômico que vivemos, baseado em pontos como atividades industriais que devem ser desaceleradas (como gás e petróleo), redistribuição econômica (renda básica universal, como a que estamos vendo com o auxílio emergencial), agricultura regenerativa (focada na biodiversidade), redução de consumo e de viagens (as viagens aéreas têm alto impacto ambiental) e o cancelamento da dívida de trabalhadores e de pequenos negócios. Todas essas alternativas podem parecer impossíveis ou mirabolantes, mas, quem diria que, com o desenvolvimento de nossas sociedades a todo vapor, estaríamos lutando em filas de espera de hospitais para podermos respirar?

Podemos pensar sobre muitas outras alternativas ao mundo pós-pandêmico. Não só podemos como devemos, pelo bem da existência da humanidade e do planeta. Encurtar cadeias de produção de alimentos, fomentar hortas urbanas, trabalhar a soberania alimentar, utilizar energias renováveis, trabalhar a ideia de empreendedorismo social, que possa trazer soluções para demandas sociais. A lista é quase infindável. O que é essencial para garantir o direito à vida? Quais atividades podem ser consideradas supérfluas na manutenção da saúde do planeta? São muitas as perguntas que devemos fazer antes que pensar em voltar à uma (a)normalidade que tínhamos. Os tempos já são outros e os pensamentos - e as ações – também devem ser.


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