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Cento e oitenta mil mortes: esta é dimensão da pandemia – a morte de toda Nova Friburgo

Por Conrado Werneck Pimentel
11/12/20 - 12:19

O último censo realizado no país, em 2010, consta que a população de Nova Friburgo tem um pouco mais de 180 mil habitantes. A estimativa para este ano de 2020 é de 191 mil habitantes. A considerar o censo de 2010, o número de habitantes de toda a cidade é o mesmo número de mortos em nove meses de pandemia da Covid-19. Imaginem uma cidade inteira que faleceu da mesma doença e suas complicações.

A cidade já perdeu algumas figuras públicas, outras – em sua maioria – eram pessoas comuns que se foram em meio a um modelo de contenção de vírus que se mostrou pouco eficaz. É bem verdade que o número de mortes acumuladas na cidade não é astronômico, mas já é o suficiente para que milhares de pessoas sintam a ausência de tantas outras. Nem a sociedade nem as frentes empresariais de classe quiseram esperar para entender o quê seria o tal do “novo normal” – cansaram, fizeram pressão no poder público, que cedeu, e o retorno à normalidade de fevereiro deste ano que não parece ter fim foi incisivo e decisivo.

Enquanto isso, a inércia do Governo Federal em se comprometer com a vacinação maciça da população mantém o ritmo de mortes que, não vai demorar muito, iremos atingir os números estimados do censo de 2020: mais de 190 mil brasileiros mortos e, a partir de janeiro, por falta de vacinas as quais o Governo Federal deveria ser, no mínimo, o articulador. Como diz um primo – mesmo que Jair Bolsonaro apareça com a cabeça de um gato com mãos ensanguentadas, continuará a negar que o gato está morto ou que foi ele seu algoz. A sequência de crimes de responsabilidade e demonstrações de desprezo pela vida da população – inclusive daqueles que se foram – parece ter insensibilizado não só a população em si, mas todas as instituições. Para não ser injusto, há, sim, notas e atos de repúdio frente ao descalabro que este governo promove, mas a pulsão de morte parece suplantar qualquer tipo de reação vinda da sociedade civil organizada ou de parte de instituições que teimam ainda que suas funções sejam preservadas e respeitadas.

Esta última coluna do ano de 2020 é um desabafo e um alerta: no próximo ano, a tragédia climática de 2011 na Região Serrana do Rio de Janeiro irá completar 10 anos e o choque daquele fatídico mês de janeiro ainda é sentido por muitos e muitas, de diferentes maneiras. Como se não bastasse essa ferida mal cicatrizada, ainda iremos velar muitos corpos que, não fosse a negligência, principalmente, do Governo Federal, poderíamos preservar. Existe um discurso que vem ganhando espaço de que é a corrupção que mata as pessoas. Ele é uma meia verdade, pois não diz o óbvio: é a ganância dos agentes econômicos, a mesquinhez de castas políticas e o patrimonialismo que marca o Estado brasileiro, que priorizam seus interesses e impõe à população em geral a mera sobrevivência – a sensação que paira feita um fantasma do famoso “cada um por si” – , uma estrutura completa que mata e deixa morrer.

Ao não dar moradia digna, ao não ter um planejamento estratégico de urbanização, ao desmontar um hospital de campanha que poderia servir à população nos mais diversos sentidos, ao escolher estocar testes para Covid-19, ao atuar de forma escancaradamente ideológica na escolha única e exclusiva em apenas uma vacina – são dessas e tantas outras formas que nos deixam morrer, quando não nos matam com seu braço armado ou com a facilitação de compras de armas de fogo ou com a irrastreabilidade de munições, abrindo mais e mais espaço para que milícias e fundamentalistas tomem conta dos quatro cantos deste país, sem [quase] ninguém perceber. Em suma, toda essa pulsão de morte, ao longo dos meses pandêmicos, fica escancarado, desavergonhadamente, o conceito de necropolítica, do filósofo Achille Mbembe: a submissão da vida frente ao poder de morte, o simples desaparecimento de uns, o fazer morrer por falta de acesso a bens e serviços públicos.

Não se iludam: há quem compre a ideia da “Suíça Brasileira”, há quem ache que Nova Friburgo é um recanto imortalizado e à parte no vale em que habita, mas é uma cidade como outra, que existe dentro de um Estado, que existe dentro de um país – e não é qualquer país, é um Brasil onde a morte, o descaso e a insensibilidade já se tornaram composição da paisagem, onde tudo isso é naturalizado. E aqui, como em qualquer outra cidade, sofremos de forma atravessada por toda ação e inação de instituições, autarquias, organizações sociais e frentes empresariais e governos. Resta saber como e o quanto iremos reagir a isso tudo.


O colunista gostaria de deixar os mais sinceros votos de paz e felicidade para leitores, leitoras e a toda equipe do Portal Multiplix e agradecer a quem o acompanhou neste difícil ano, com a esperança de que dias melhores virão.


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