Excluídos e exclusões

⁢Por que os excluídos são, eles mesmos, excludentes?

Por Ricardo Lengruber - 26 de Novembro de 2018, 09:19

Há em curso no mundo uma onda de simplificações. Temas complexos estão sendo tratados com uma superficialidade perigosa. Mais que isso: questões relacionadas aos destinos da civilização estão na seara de irresponsáveis reducionismos.

Temas ligados às mulheres, aos negros, aos indígenas, aos refugiados, aos imigrantes, aos homossexuais são considerados como purismos ideológicos que não merecem respeito. Em alguns casos, são combatidos mesmo como se fossem, eles próprios, os geradores de problemas e mazelas na sociedade. A lógica virou de cabeça para baixo. As vítimas passaram a ser as perseguidas. Os criminosos tornaram-se os heróis.

Quando o presidente norte-americano e boa parte de lideranças europeias fecham as portas para ondas cada vez maiores de refugiados, e, ao mesmo tempo, há gente aplaudindo e incentivando, é porque princípios básicos de solidariedade e bem comum não conseguiram efetivamente vingar nos estados contemporâneos de bem-estar social.

Quando negros ainda recebem, como no exemplo do Brasil e de boa parte do Ocidente, salários consideravelmente menores e são, nas rodas e nas redes, alvo de piadas e ofensas, é porque o senso de humanidade e de fraternidade não logrou qualquer êxito entre nós.

O mesmo, e em cada caso com os desdobramentos inerentes ao seu universo, ocorre com todos os grupos ‘minoritários’ em seus reclames. No fundo, é a imensa maioria da população mundial que está nessa situação, mas, curiosamente, há um discurso hegemônico, e que ganha forças a cada ano, que criminaliza, persegue e desacredita essas agendas.

A pergunta que surge desse paradoxo é então: afinal, por que, sendo a maioria excluída, é o discurso do aprofundamento das exclusões o que ganha terreno? Em outras palavras: por que é o avesso do razoável o que ocorre no mundo? Enfim, por que os excluídos, sem perceber, às vezes, funcionam como radicalizadores das exclusões?

As respostas são plurais, inconclusas e, como as próprias questões, complexas. Por vezes, ambíguas. Há razões políticas e psicológicas; econômicas e religiosas; culturais e ideológicas.

O avanço das agendas identitárias na segunda metade do século XX promoveu a inclusão de importantes segmentos da sociedade. Gente historicamente excluída passou a se enxergar como sujeito de direitos. Estados inteiros foram pressionados a criar mecanismos legais e sociais para incluir. Obviamente, por consequência, setores até então privilegiados viram-se ameaçados em sua hegemonia.

Dividir o bolo era até então um exercício retórico, apoiado inclusive pelo discurso religioso dominante. A caridade sempre teve o papel de expiação do pecado acumulador. Nada, entretanto, que revolvesse a lógica econômica das sociedades. Com os pleitos concretos de inclusão, cotas, direitos humanos e tolerância, a verborragia pseudocristã foi incomodada.

Além disso, a própria moral cristã institucional foi subvertida pela ideia de que o que efetivamente importa é o ser humano, independente de seus estereótipos condicionados pela cultura dominante. Identidades até então ignoradas (ou mesmo combatidas) passaram a ter vez e voz.

Práticas como a matrícula de jovens negros numa universidade pública brasileira ou a afetividade entre pessoas do mesmo sexo na televisão assumiram uma espécie de protagonismo no universo simbólico dessa época. E, novamente, setores até então detentores das chaves da moral e dos bons costumes, viram-se ameaçados em sua hegemonia simbólica.

As relações entre economia, política e privilégios são evidentes quando estereotipadas em elementos simbólicos. O problema não é o símbolo em si, mas o que efetivamente ele representa. Uma ação de caridade não abala o sistema. Uma política pública de inclusão, sim. Por isso, o mesmo cristão que é capaz de se vestir de papai Noel e distribuir bolas e balas no Natal na periferia se sente incomodado com a presença do carro de seu jardineiro na porta de sua casa.

Até aí, é compreensível: privilegiados que se sentem ameaçados coibindo políticas públicas de inclusão. O que ainda fica em suspenso é a razão pela qual os próprios excluídos operam essa mesma engrenagem e passam, eles próprios, a reforçar o discurso e os símbolos da exclusão.

Nesse pormenor, a questão ideológica é fundamental. Na medida em que as distorções econômicas são históricas e radicais, a percepção delas só é conseguida graças a muito esforço analítico. Em outras palavras, ideologia parece natural; compreendê-la, somente com muito trabalho filosófico. Tarefa restrita, portanto.

Os mesmos setores privilegiados que se locupletaram de vantagens ao longo da história usam do expediente do sentimento de injustiça para doutrinar os mais pobres e mais vulneráveis. Ainda que as questões identitárias tenham ganhado relevo nas últimas décadas, permanece sendo a pobreza a chaga mais grave do mundo no século XXI. Há multidões sem um prato de comida por dia. A iminência da miséria, portanto, alarma e assusta milhões de pessoas. Políticas de cotas e de compensação parecem ameaçar exatamente quem mais perto está dessa linha fronteiriça com a fome. Mesmo que os números mostrem avanço por inteiro na sociedade, o sentimento de perda é fulminante.

É nessa lógica que as elites sempre aquinhoadas são eficientes em usar a própria voz dos beneficiados para articular o discurso de combate ao que, paradoxalmente, chamam de privilégios. Em outras palavras: quem sempre teve emprego, renda e educação garantidos por privilégios históricos, agora empunha a bandeira do combate aos ‘privilégios’ pela voz dos próprios ameaçados.

É isso que explica eleições como a de Trump nos EUA e a de Bolsonaro no Brasil. Os setores mais pobres desses países votaram naqueles que, na prática, mais ameaçam sua possibilidade de conquistas e emancipação social. É a lógica de quem - sendo assalariado - é capaz de defender essa reforma da previdência que aí está sendo imposta ou do fim de direitos trabalhistas historicamente conquistados.

E por que agiram e votaram assim? Porque se sentem ameaçados por aqueles que parecem estar furando a fila rumo a um sonho que lhes aparenta escapar. É a dinâmica das multidões que, com fome, se acotovelam quando se lhes jogam migalhas. É uma miopia estratégica: não reconhecem onde exatamente está o perigo e quem são efetivamente os inimigos. Brigam entre si. Preservam os do andar de cima.

Por essas e outras é que resta claro que só há uma forma de superação desse emaranhado todo. Educação. Não essa educação formatada pela sociedade do consumo de tudo, inclusive de ideias. Mas uma educação ocupada com a dúvida. Uma educação corajosa em enfrentar contradições de si mesma. Uma educação que seja sinônimo de filosofia, na acepção do termo.


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