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O bom menino

Por George dos Santos Pacheco
30/12/20 - 08:20

– Como vai, Papai Noel? – cumprimentou, de maneira sarcástica. O velho estava sentado numa cadeira metálica, mal conservada, as mãos amarradas por trás do apoio, e os pés às pernas da mesma. O homem puxou outra e sentou à sua frente, após retirar-lhe a mordaça.

– Quem... quem é você? O que estou fazendo aqui? – perguntou o senhor, com os olhos marejados e certo desespero na voz. A barba, inteiramente branca, coberta de respingos de saliva.

– Ora, não se faça de besta. Você sabe muito bem quem eu sou. – disse o homem com os braços cruzados. Um deles, inteiramente tatuado com um mosaico perturbador de vilões do tema infantojuvenil, entre Gargamel, Mun-Rá, Coringa e outros tantos.

– Não entendo... olha... eu não tenho dinheiro...

– E eu tenho cara de quem quer dinheiro, velho safado? – esbravejou. – Levou anos, mas eu consegui. Finalmente eu consegui! – comemorou com um sorriso infantil.

– Então vocês acharam que eu ia acreditar nessa conversa fiada de que Papai Noel não existe?

– Ora, não?

– E vai continuar mantendo esta farsa? – gritou levantando-se da cadeira e atirando-a longe. Caminhou até bem próximo ao bom velhinho e continuou.

– Eu sempre fui um bom menino. Mas nunca vi o senhor chegar em minha casa, embora tentasse manter-me acordado. Então comecei a questionar meus pais. Ano após ano, fiz minhas teorias, conjecturas, investigações, anotações em cadernos... até que em um certo dia eles me chamaram e disseram (sem muito traquejo) “Olha filho, o Papai Noel não existe. Ele... ele na verdade é seu pai...”. Pelo amor de Deus, eu sou mais inteligente que isso. Então quer dizer que no dia vinte e quatro meu pai entra numa cabine telefônica e sai transformado em Santa Klaus? Ou então, grita “pelos poderes de Grayskull, eu sou o Papai Noel?”. Corta essa.

– Amigo, por favor me solte. Eu não tenho dinheiro, olha... eu sou aposentado, moro lá em Nova Suíça. Faço esses bicos no final do ano pra ganhar uma graninha, mas não dá pra nada.

– Sabe, isso é semelhante a alguém que atira farelos para os pombos. – disse meneando o dedo em riste. – Os pássaros se dão por satisfeitos, quando na verdade poderiam ter muito mais que isso. As instituições vivem desse embuste: empurram meias verdades (ou mentiras inteiras) como um antepasto que empanzina e estufa, dai saímos arrotando essas falácias, saciados, sem degustar o prato principal. Deixamos de procurar a verdade, porque nos fartamos com as migalhas. É assim desde o início, mas eu sou melhor que isso, muito melhor que isso.

– Não sei do que está falando. – disse o velho com pesar.

– Cala a boca! – gritou o homem, limpando o nariz úmido com as costas da mão, os olhos ligeiramente marejados. – Acabe logo com essa burla. É claro e evidente que Papai Noel existe. Mesmo após a “verdade” ter me sido revelada, você continuou vindo. Até depois que meu pai se foi.

– E o que houve com seu pai?

– Saiu para comprar cigarros. Mas isso não vem ao caso agora. A questão é que todos vocês mentem. A família, os amigos, as instituições, o tempo todo e sobre tudo. Todos vocês.

– Meu jovem, eu não sei que tipo de brincadeira é essa. Mas é como eu disse, me visto de Papai Noel pra ganhar uns trocados, só isso.

– E vai continuar negando? Olha, eu acho bom você admitir logo que é o Papai Noel, se não eu acabo com sua raça, com o Natal, com essa palhaçada toda. Para mim já não importa mais.

– Espera um pouco amigo, err... você tem razão! Sim, sim. A maioria mente, mas não todos nós. Eu... veja, eu não poderia dizer-lhe isso assim, sabe? É verdade, eu sou o Papai Noel... mas tudo isso faz parte... da magia do Natal. Sinto muito por suas decepções e por tudo que você passou na vida, mas estou disposto a lhe dar o que pedir de presente este ano. Apenas me solte. – argumentou sentindo um calafrio nervoso.

– Eu sabia! – gritou o homem numa caricata comemoração. – A magia do Natal. Tudo se faz novo, tudo se justifica pela magia do Natal. As reconciliações, a soberba, o comércio, as mentiras... enumerou nos dedos, caminhando e concluindo com um débil chute na cadeira caída.

– Eu te dou o que você quiser. Não faça nada comigo. – insistiu o homem, com esperança.

– Ora, mas é claro que não. – murmurou num suspiro frustrado.

– Graças a Deus! Que alívio!

– Sabe, eu não me comportei tão bem assim este ano para merecer “o que eu quisesse” – e o bom velhinho deveria saber muito bem disso. Aliás, eu seria um monstro se fosse capaz de causar qualquer mal ao Papai Noel. Mas você não é o Papai Noel, não é mesmo?


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