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E eu, então?

Por George dos Santos Pacheco
26/08/20 - 12:08

Algum tempo atrás, eu estava aguardando para um exame de sangue na clínica. Na TV, num programa matinal em que o mote são entrevistas com famosos, curiosidades e culinária, a apresentadora ensinava uma receita de um pão de queijo gourmet (ih, rapaz, se é gourmet, deve ser bom), simples e rápido de fazer. Tudo bem, tem um monte de receitas de pão de queijo por aí, mas a loira prometia um segredo revolucionário pra deixá-lo crocante por fora e macio por dentro, o que era o seu grande diferencial.

Eu não sei vocês, caros leitores, mas parece que quando algo nos é privado, aí é que ele nos apetece ainda mais. E justamente porque eu não deveria comer, eu estava com uma tremenda fome nessa manhã. Já aconteceu com vocês? É como quando alguém diz “não durma!” e só por isso você começa a caturrar. Imaginem-me então, sentado na longarina, a cabeça levemente inclinada para cima, os olhos brilhando para a receita e o estômago roncando.

– Pra fazer essa receita maravilhosa, amiga, você vai precisar de: 500 gramas de polvilho doce; 1 ou 2 ovos; 250 ml de leite integral; 1/2 copo de óleo; 1 colher/sopa rasa de sal; 1 pacote de queijo ralado parmesão; e 1 prato cheio (350 g) de queijo meia cura e/ou muçarela ralado no ralador. Lembrando que quanto mais queijo, mais gostoso o pão vai ficar! Passei a noite toda com umas cólicas horríveis e fui parar no hospital.

Ora cacetas. Isto não faz parte de uma receita de pão de queijo. Me distrai com a conversa entre duas pacientes. A mulher de meia-idade falava com outra, mais nova, sobre sua mais última aventura médica, com um requinte de detalhes que não vale muito a pena mencionar aqui.

– O doutor me olhou e passou um monte de exames (de sangue, ultrassonografia, etc.). Ele era bem novinho. Disse que podia ser pedra na vesícula.

– Primeiro, coloque o leite e o óleo em uma panela pra esquentar, desligue o fogo imediatamente assim que começar a ferver. Menina! E eu? Eu já estava ruim pra danar, minha pressão estava descontrolada, a sinusite havia atacado, e eu nem podia tomar remédio por causa da gastrite. Desmaiei e acordei no hospital.

Meu Deus do céu, será possível que eu não vou poder ver essa bendita receita em paz? Corri o olhar da TV para elas, delas para o diminuto balcão com o a garrafa de café e os biscoitinhos, do balcão para a atendente – que poderia aumentar o volume para mim, e dela para a televisão novamente. Suspirei. Curioso como há pessoas que seguem a cartilha do “quanto pior, melhor". Em tudo: notícias, mazelas humanas e inclusive doenças. Parecia que havia ali uma competição para ver quem estava mais doente. As pessoas parecem apaixonadas pelo mal, como naquela síndrome de Estocolmo, em que a vítima sente-se atraída por seu algoz. Nesses tempos em que estamos todos preocupados com o avanço da gripe, essa turma conta número a número o aumento dos casos de infecção e óbitos. Façam-me o favor! Isso faz mal, caras, alguém duvida disso?

Uma das mulheres entrou para o exame. Graças a Deus! Agora vejo a receita (o estômago roncou de novo). “Em uma tigela grande, coloque o polvilho e o sal, e misture bem, logo em seguida, despeje o conteúdo da panela ainda quente, misture bem, primeiro com uma colher e depois com a mão. Minha filha... Eu já fiz treze operações. Hérnia, vistas, hemorroidas... Uma vez fui desenganado pelos médicos...”

Valha-me Deus do céu!

Um senhor de idade havia chegado e eu nem tinha percebido. Se tornou o interlocutor perfeito para a mulher das cólicas horríveis. Ô fome! Agora a apresentadora mostrou novamente a imagem do pão de queijo sendo partido ao meio, com ambas as mãos, o recheio derretendo...

– Sr. George! – chamou o técnico de laboratório, com o pedido nas mãos. Beleza! Faço logo isso e de quebra me livro desse pessoal hipocondríaco.

– Bom dia!

– Bom dia! Pode sentar aí, Sr. George. Fez o jejum direitinho?

– Ô, se fiz.

– Eu acordei atrasado hoje e nem tomei café! Estou com uma fome que chega a doer! – disse, insensível, o técnico enquanto amarrava o garrote no meu braço. Não me aguentei.

– E eu, então?


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