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Águas passadas

Por George dos Santos Pacheco
20/01/21 - 10:10

Eu trabalhava no escritório da firma em Niterói. Assumira recentemente uma função na área de RH e ainda estava me acostumando com documentos, normas, leis e regulamentos. E apesar de já contar com mais de dez anos de empresa, tudo era muito novo pra mim.

Era janeiro, chovia constantemente há semanas e a terra estava encharcada. Quem é friburguense já conhece o clima da região, capaz de abrigar as quatro estações num dia só. Mas era verão. Um verão insistentemente chuvoso.

Naquela noite, eu dormi no alojamento fornecido pela instituição, a fim de evitar o trajeto de 130 km casa/trabalho. Trabalhei normalmente a manhã inteira, não li jornais, não acessei redes sociais, e estranhamente, também não conseguia contato com minha família. Eu não sabia, mas havia alguma coisa errada.

Foi assim que logo após o almoço, alguns colegas começaram a comentar sobre tudo que havia acontecido na minha cidade, ao que eu retruquei “Tudo?”; ora, eu sabia apenas de um caso isolado de um imóvel que desabara em Olaria – o que também é digno de preocupação e pesar, admito. Somente então, pude ver, nos portais de notícias, imagens da tragédia que havia se abatido em Nova Friburgo e região. Na matéria, a Igreja de Santo Antônio, na Praça do Suspiro, destruída por uma avalanche de lama e pedras, restos de árvores. Lama por todos os lados, carros soterrados, mortos, desabrigados e desaparecidos.

Pedi licença ao chefe, com certo desespero na voz, a fim de sair mais cedo e ir para casa – afinal, a situação era caótica e eu precisava dar apoio à minha família, os mesmos dos quais eu angustiadamente não conseguia ter informações. Sem maiores questionamentos, fui liberado e peguei a estrada apressadamente.

A mídia atualizava constantemente os dados da catástrofe, os números eram alarmantes. A estrada havia sido fechada na Serra de Cachoeiras de Macacu, somente carros oficiais estavam autorizados a passar. Mas o que eu poderia fazer? Subiria a serra a pé se fosse preciso, caro leitor.

Cheguei à cidade vizinha (também afetada com queda barreiras e lama) e me dirigi ao guichê da empresa de ônibus. Os coletivos estavam proibidos de subir à Friburgo, nenhuma passagem estava sendo vendida. E como já havia organizado o Plano B, segui caminhando mesmo em direção à serra cachoeirense. Mas eis que logo em seguida, por aquilo que acostumamo-nos a chamar de sorte, fui surpreendido por uma ambulância do Corpo de Bombeiros que se dirigia a fim de prestar ajuda ao grupo friburguense. Mais que depressa saltei para o meio da estrada, acenando e fazendo o veículo parar. Identifiquei-me e expliquei minha situação – se é que fosse necessário mais algum tipo de explicação – e consegui carona até a cidade.

Já na altura da Ponte da Saudade, deparamo-nos com muita lama e daí pra frente a situação só piorou. Pairava uma atmosfera estranha, um silêncio assustador difícil de explicar. Não se ouvia ruídos de veículos, de pássaros ou quaisquer animais, nem de gente. As poucas pessoas que eu vi estavam à frente das residências
que resistiram e falavam parcamente. Não havia luz, TV, rádio, telefone, celular, ou internet. Com o tempo, começou a faltar água e alguns itens de alimentação também. Tudo era muito novo pra mim. Para todos nós.

Graças a Deus (ao Universo, ao alinhamento dos planetas, chame do que quiser), não perdi nada, nem parentes, nem amigos, nem bens. Sofri sim, pelo caos causado pela tempestade, e também pelo sofrimento dos outros. Afinal, todos conhecemos alguém que perdeu alguém. Mas vivemos. Sobrevivemos, saudoso leitor.

Dez anos se passaram, mas as marcas daquela madrugada insólita, as cicatrizes estão por todos os lados: nos morros, na cidade, nos corpos e nas almas. Recuperamo-nos, ressurgimos (literalmente) dos escombros físicos e psicológicos, a duras penas sim, em meio ao notório e insolente vácuo de ações realmente éticas, morais, eficientes e eficazes de nossas autoridades e representantes. Mas isto não vem ao caso agora. Agora.

Enfim, as cicatrizes. Passou, meus caros, são águas passadas, com o perdão do trocadilho. E estamos aqui, para o que der e vier.

Olhemos nossas cicatrizes com orgulho porque elas são a prova mais contundente de nossa resiliência. Estão ali a nos encarar de volta, sussurrando a verdade, tão óbvia e ao mesmo tempo, tão negligenciada: aqui se feriu, aqui se curou.


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