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Por que o cancelamento do Censo 2021 afeta a sua vida em Nova Friburgo

Chefe da agência do IBGE no município fala sobre as consequências atuais e futuras da falta do levantamento estatístico e os impactos para a vida do cidadão

Por Bernardo Fonseca
27/04/21 - 16:39
Por que o cancelamento do Censo 2021 afeta a sua vida em Nova Friburgo Pelo segundo ano, Censo do IBGE não será realizado. Orçamento para a pesquisa foi desidratado | Foto: Divulgação/IBGE

De dez em dez anos, os friburguenses estavam acostumados a receber uma pessoa específica em casa. Munidos de crachá e uniforme, eram os agentes recenseadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles percorriam Nova Friburgo – áreas urbanas e rurais, indo de residência em residência, para mapear a realidade do município para o Censo Demográfico. Questionários-base eram aplicados, com perguntas que iam desde quantas pessoas viviam na casa a quantos eletrodomésticos a família tinha.

Mas esse levantamento sobre a vida dos friburguenses e dos brasileiros não ocorrerá. Na verdade, o Censo do IBGE já tinha sido adiado em razão da pandemia da Covid-19. Estava planejado para ser realizado em 2020 e foi postergado para este ano. Entretanto, o orçamento necessário para que ele pudesse acontecer virou cinzas. Dos R$ 2 bilhões reservados, sobraram R$ 70 milhões na Lei Orçamentária de 2021, sancionada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, na semana passada.

E esse não foi o único corte. Ainda em 2019, antes mesmo de passar pelo primeiro adiamento, o orçamento inicial do Censo, que era de R$ 3,2 bilhões, já tinha sofrido uma expressiva redução para R$ 2,3 bilhões. Tanto que o tamanho dos questionários previstos para serem aplicados pelos recenseadores diminuiu em relação à última pesquisa, de 2010. Dessa forma, o tempo médio que os agentes levariam em cada visita cairia, permitindo mais idas às residências em menos tempo. E sem todas as perguntas, consequentemente temos menos informações sobre os brasileiros.

Último Censo Demográfico do IBGE foi realizado em 2010 Último Censo Demográfico do IBGE foi realizado em 2010 | Foto: Divulgação/IBGE

O drama sobre a atualidade dos dados levantados pelo IBGE não é de hoje, mas se intensificou nos últimos anos. “Deveríamos ter tido uma contagem populacional em 2015, que seria um Censo mais reduzido, mas também por falta de verba não aconteceu”, conta Vinicios Abreu, chefe da agência do IBGE em Nova Friburgo.

Para que serve o Censo Demográfico

O Censo nacional constitui a principal fonte de referência para o conhecimento das condições de vida da população, retratando aspectos como educação, saúde, moradia, trabalho e saneamento básico. Através dele é possível identificar as mudanças ocorridas no período de uma década e comparar os dados para entender melhor a evolução de diversos indicadores socioeconômicos.

“Os dados são utilizados para os mais diversos fins: desde subsidiar políticas públicas, orientando o planejamento da gestão e permitindo aplicar recursos nas áreas prioritárias, até investimentos do setor privado, pois fornecem informações sobre o mercado consumidor, poder de compra, localização do público-alvo e outros”, explica Vinicios.

Podemos até não perceber, mas o Censo está muito mais presente no nosso dia a dia do que imaginamos. Taxas de natalidade e de alfabetização, densidade populacional, campanhas de vacinação, políticas educacionais, todas estas diretrizes dependem dos resultados do Censo para serem calculadas ou planejadas.

Um bom exemplo sobre como as estatísticas levantadas pelo Censo são importantes é a consolidação do programa Bolsa Família. “Por meio dos dados gerados pelos censos de 2000 e 2010 é que foi possível mapear a população que vivia na extrema pobreza e, a partir daí, concentrar as ações e promover políticas de formas mais precisas a fim de amenizar esta situação”, conta.

Impactos do cancelamento na prática

O IBGE realiza diversas outras pesquisas com recortes nacionais, mas a maioria desses levantamentos utiliza a base de informações do último Censo (de 2010) e, portanto, os dados ficam defasados, como a Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad).

“As políticas públicas são elaboradas com base nas necessidades da população e para conhecê-las são necessárias informações. A falta destas estatísticas deixa os gestores às cegas”, ressalta o chefe do IBGE de Nova Friburgo.

Falta dos dados atualizados do Censo impactam outras pesquisas do IBGEFalta dos dados atualizados do Censo impactam outras pesquisas do IBGE | Foto: Divulgação/IBGE

Os resultados identificados pelo levantamento do IBGE também são utilizados para atualizar os repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), que são feitos de acordo com o número de habitantes. Municípios pequenos ou de médio porte, como Friburgo, costumam ter grande dependência das verbas oriundas do fundo.

“Durante estes 11 anos, desde o último Censo, as mudanças são evidentes, várias cidades cresceram, outras nem tanto. Ainda que o IBGE tenha um nível de excelência nas suas estimativas, algumas já estão defasadas pelo longo período”, contextualiza.

Outra perda significativa para os municípios, de acordo com Vinicios, é que o Censo proporciona um diagnóstico mais profundo em níveis territoriais, sendo a única pesquisa que permite o filtro de dados até o nível de bairros. “Esta ferramenta para as prefeituras é essencial, uma vez que permitem a alocação de recursos com muito mais eficiência”.

O Censo e as crises

Embora os cortes no orçamento para a realização do Censo sejam anteriores à pandemia, a crise provocada pela disseminação do novo coronavírus também tem parcela de culpa no cancelamento da pesquisa. E a inexistência do levantamento em 2021 afetará ainda mais a realidade do Brasil no futuro.

“No próximo ano ainda sentiremos os efeitos da pandemia e os resultados do Censo ajudariam muito a tentar amenizar os problemas pós-pandemia, que não serão poucos”, explica Vinicios.

Falta do Censo em 2022 dificulta a solução dos problemas agravados pela pandemiaFalta do Censo em 2022 dificulta a solução dos problemas agravados pela pandemia | Foto: Divulgação/IBGE

“A última década mostrou um decréscimo considerável na renda da população que foi agravada com a pandemia. Neste momento, entender a fundo como estão vivendo as pessoas, tornaria muito mais consistente o direcionamento das políticas públicas para cada área específica”, complementa.

Os desafios de promover um Censo durante a pandemia

Por um lado, a não realização do Censo representa um vazio estatístico em relação a Nova Friburgo e os municípios brasileiros. Por outro, fazê-lo durante o auge da pandemia seria desafiador. “Estaríamos com parte da população sem vacinação e mesmo que todos os protocolos desenvolvidos fossem seguidos, o risco seria grande de termos o trabalho interrompido em alguns locais”, afirma Vinicios.

Para o próximo ano, a preocupação permanece. O IBGE vem tentando adaptar suas atividades para garantir a qualidade dos levantamentos, mas o Censo é um caso à parte.

Agentes do IBGE paramentados com equipamentos de proteção contra a Covid-19, no Rio de JaneiroAgentes do IBGE paramentados com equipamentos de proteção contra a Covid-19, no Rio de Janeiro | Foto: Divulgação/IBGE

“A coleta remota (via telefone ou Internet) seria a alternativa mais viável, porém esta ainda não é a realidade de todos os brasileiros, basta ver os levantamentos do próprio IBGE que revelam que uma parte considerável da população ainda não tem acesso à internet”, diz.

E sobre o futuro do Censo? De acordo com Vinicios, o instituto retomará as tratativas com o Ministério da Economia para planejar e promover a realização do levantamento estatístico em 2022, de acordo com cronograma a ser definido.


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