Pesquisa da UFF Friburgo sobre combate ao câncer de boca está ameaçada

Com cortes sucessivos desde 2015, resultados podem ser perdidos

Por Juliana Guzzo
24/06/19 - 13:25
Pesquisa da UFF Friburgo sobre combate ao câncer de boca está ameaçada Grupo da UFF de Friburgo que pesquisa compostos naturais para o combate ao câncer de boca | Foto: Divulgação/UFF Nova Friburgo

Em abril de 2018, o Campus de Nova Friburgo da Universidade Federal Fluminense comemorava os primeiros resultados da pesquisa de compostos naturais para o combate ao câncer de boca. Professores e alunos dedicavam-se ao estudo da ação anticancerígena de substâncias orgânicas presentes na natureza, frente às células de câncer.

Além da importância em âmbito nacional da pesquisa, localmente ela também é muito relevante, uma vez que, segundo os pesquisadores, em Nova Friburgo há elevado número de pessoas com diagnóstico de câncer de boca e faringe.

Porém, o cenário de comemorações deu lugar a grandes preocupações em 2019. A pesquisa, realizada por um grupo de quinze professores e alunos bolsistas, liderado pelo coordenador do Laboratório de Análises Clínicas do Instituto de Saúde de Nova Friburgo (ISNF), Bruno Kaufmann Robbs, junto com o professor do Departamento de Química Orgânica, Fernando de Carvalho da Silva e sua equipe, está ameaçada pela falta de verbas.

Em entrevista ao Portal Multiplix, o coordenador da pesquisa, Bruno Robbs, dá o panorama atual do cenário enfrentado pelos pesquisadores na cidade e no Brasil.

Portal Multiplix: Como os cortes de verbas já estão afetando a pesquisa e os alunos envolvidos?

Dr. Bruno Kaufmann Robbs: Os cortes de verbas para pesquisa vêm acontecendo desde 2015 em nível Estadual e Federal. Posso falar da experiência do meu grupo de pesquisa, mas algo similar está acontecendo com a maioria dos grupos do país. Estamos basicamente sobrevivendo de estoques de material que tínhamos antes dos cortes, por troca desses materiais, por doações privadas (que são poucas) e de grupos de pesquisa que ainda recebem (de forma muito reduzida) alguma forma de verba. Grande parte do material, atualmente, estou comprando com meu próprio salário. A pesquisa no Brasil está ameaçada não somente pela redução da produção atual, mas principalmente pela evasão de cérebros que estes cortes estão causando. Alunos novos estão escolhendo novas profissões/formações e os treinados (com doutorado e pós-doutorado) estão deixando o Brasil para poder continuar na área de pesquisa. Se os cortes continuarem por mais tempo, não será uma situação de rápida solução, uma vez que, para formar novos pesquisadores, são necessários anos de treinamento.

Portal Multiplix: Com os resultados obtidos até agora, vocês já podem indicar algum avanço na descoberta da ação de algum novo composto ou método que auxilie no tratamento?

Dr. Bruno Kaufmann Robbs: Apesar de termos resultados animadores com substâncias isoladas de plantas regionais e de substâncias sintéticas no tratamento do câncer de boca, a aplicação no tratamento em humanos ainda demorará. A falta de auxílio financeiro somente atrasa esse processo. Possuímos amplo parque tecnológico (equipamentos de última geração) dentro das Universidades e Institutos de Pesquisas, contudo não podemos comprar insumos para utilizá-los por falta de verba. Um verdadeiro desperdício.

Portal Multiplix: Caso não tenha os recursos necessários, o que vai acontecer com a pesquisa?

Dr. Bruno Kaufmann Robbs: A pesquisa só continua no Brasil pelo interesse, esforço, aplicação e determinação dos alunos e pesquisadores envolvidos. Caso o investimento público na pesquisa não retorne logo, o Brasil voltará a ocupar um papel periférico na produção de conhecimento e tecnologia. Não há crescimento econômico sem ciência e tecnologia. O Brasil somente continua líder na produção agrícola (em alguns setores) pelo amplo investimento em pesquisa, por exemplo, no desenvolvimento de novos tipos de plantas que crescem mais rapidamente ou geram melhor retorno econômico. Temos uma das maiores diversidades vegetais. Alguns dos principais quimioterápicos do mundo (taxol, vincristina e etoposídeo), que geram retorno bilionários anualmente para os países que os produzem, foram isolados de plantas. O Brasil tem a faca e o queijo na mão.

Portal Multiplix: Você acredita que o governo possa voltar atrás nos cortes?

Dr. Bruno Kaufmann Robbs: Acredito ser um grande desperdício que tenhamos investido bilhões em equipamentos para gerar um parque tecnológico e não possuirmos financiamento para utilizá-lo. Países desenvolvidos investem fortemente em ciência e tecnologia e por esse grande e constante investimento colhem retornos através de patentes e produtos gerados. No Brasil falta um investimento sustentado (duradouro) em ciência e tecnologia. Tivemos alguns anos de amplo investimento que nos possibilitou montar a estrutura atual e aumentar o quórum de pesquisadores com nível internacional de competição. Contudo, com os atuais cortes, estamos perdendo a oportunidade de resgatar o investimento feito. O Brasil preparou o solo, semeou, esperou crescer, mas deixou de colher. Logo perderemos a colheita toda.