Esquerda e direita (parte 2)

Progressistas e Conservadores

Por Ricardo Lengruber - 14 de Janeiro de 2019, 09:37

Série de seis artigos sobre Ideologia, Política e Economia. Na Europa, nos EUA e no Brasil. Do século XVIII ao século XXI.

Direita e esquerda na Europa

Um bom exercício é tentar compreender a relação entre direita e esquerda (num eixo horizontal), e conservadorismo, liberalismo e socialismo (num eixo vertical). E, além disso, compreender a evolução de todos esses conceitos ao longo do tempo.

1.

Numa primeira fase, ainda no século XIX, a esquerda política é liberal do ponto de vista econômico; enquanto a direita política é representada pelo pensamento conservador.

A esquerda era favorável a um mercado livre, a um Estado mais fraco, mais igualdade social e contrária aos privilégios do Antigo Regime. Por isso, boa parte da esquerda, nesse momento, é favorável às mudanças sociais, à democracia, à república e ao anticlericalismo.

A direita, pelo contrário, é favorável a um Estado mais forte, e acaba por se tornar anti-igualitária em termos sociais e econômicos, na medida em que favorece as hierarquias tradicionais e defende a ordem, a tradição, a monarquia e a religião estabelecida.

2.

Num segundo momento, entre o final do século XIX e o início do século XX, as ideias socialistas ganharam força e passaram a ocupar a esquerda no espectro político. Os socialistas, na origem, têm uma visão de recusa dos privilégios e também de igualitarismo social e econômico. Com o amadurecimento do capitalismo na Europa, as análises socialistas mostraram que o livre mercado promoveu concentração de riqueza e desigualdade social.

Por isso, nesse momento, quando os socialistas ocupam a esquerda, os liberais são empurrados para o centro e os conservadores, para a direita. E, além disso, os socialistas começam a defender que o Estado tenha uma função mais forte para controlar a economia e garantir direitos iguais para todas as pessoas.

É nesse cenário que os conservadores passam a ser identificados com a direita e os liberais, ocupando o centro político, tendem a quase desaparecer ou a serem absorvidos pela direita ou pela esquerda. Quanto mais tradicionais são os liberais, mais capturados são pela direita conservadora; quanto mais atentos às questões sociais, mais os liberais se tornam afinados com os ideais socialistas da esquerda.

3.

Uma terceira fase, que resumiria o coração do século XX (a tal “era dos extremos”), é caracterizada por ideias extremistas e, em certo sentido, contrárias até à manutenção do constitucionalismo e do pluralismo.

De um lado, à esquerda, dá-se a ascensão do comunismo – posicionando-se contrariamente ao regime constitucional burguês ou contra os populismos autoritários.

De outro lado, ocorre a ascensão dos autoritarismos conservadores e do próprio regime nazifascista.

Para esse momento da História, a esquematização direita e esquerda e as ideias liberais e conservadoras não são exatamente as únicas, uma vez que os regimes autoritários extremistas e ditatoriais, independentemente do lugar ideológico em que se situam, são uma contestação ao próprio constitucionalismo. Por isso, talvez, seria necessário incorporar a esse esquema uma outra vertente de análise: a polarização entre autoridade e liberdade.

O curioso, no entanto, é que os regimes autoritários e totalitários se posicionaram tanto à direita quanto à esquerda; e o mesmo ocorreu com os regimes que preconizavam a garantia de liberdades. Em outras palavras, o século XX assistiu a eclosão de ditaduras de esquerda e de direita, indistintamente.

4.

Depois da Segunda Guerra Mundial, socialistas e conservadores, direita e esquerda, tornam-se mais moderados. Ambos, cada um à sua forma, aproximam-se do centro – marcadamente liberal.

É por isso que nas democracias do pós-guerra o socialismo é mais liberal, situando-se na centro-esquerda; e o conservadorismo, também mais sensível à economia de mercado, passa a ocupar a centro-direita.

E é assim que surgem, na Europa, por exemplo, as democracias com forte atenção às questões sociais. O Estado de bem-estar social nasceu e cresceu graças às vantagens econômicas dos liberais e a sensibilidade social dos progressistas.

Essa esquematização em quatro fases ajuda a compreender bem a história política e econômica na Europa. Mas, embora as categorias esquerda e direita estejam presentes no mundo todo, elas não funcionam de igual maneira para todos os países.


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